Amores de Mãe – Uma reflexão sobre Maternidade e Sororidade

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Maternar, ser mãe, ser fonte, ser doação constante, cuidado, entrega, desapego. Cuidar da vida que chega, morrendo e renascendo em outra realidade, ou melhor, em outra dimensão.

Me lembro quem eu era antes de maternar. Engraçado que hoje eu fico me procurando na minha antiga existência para vivenciar um pouco do que eu fui, inclusive para me deparar com minhas feridas e curar minhas lacunas, mas não chego a grandes conclusões. É uma transformação silenciosa, gradual, contínua e totalmente visceral.

Meu filho, Bernardo, hoje tem 5 anos. Também carrego no ventre mais uma promessa de vida que está com 10 semanas e alguns dias. Nesse tempo como mãe eu tive a oportunidade de me reinventar como mulher. Parece que estou numa constante regressão de como eu fui cuidada, como foram minhas experiências durante meu crescimento para poder me guiar e seguir um prumo de como ser mãe.

Ressalto também algo muito importante: durante essa construção de mim, desde quando me entendo por gente, eu me descobri extremamente questionadora, espírito faminto de conhecimento e pensamento crítico. E isso também me guia com força e alegria, por sentir que tudo flui, tudo é mutável, tudo se pode ver com um novo olhar (as águas me ensinam muito nesse sentido).

Nessa dança a gente busca encontrar nosso próprio ritmo, nosso próprio fluir. E, para cada mulher, esse movimento é único, sempre guiada pela batida insistente de um coração jovem e cheio de avidez pelo novo, pelo experienciar de ser fonte.

Quando a gente passa pelo ritual de parir, estamos literalmente nos sentindo vazias, ocas e, com toda potencialidade geratriz de quem renasceu numa nova realidade. Ao reconhecer isso, a gente para e pensa (eu pelo menos tenho pensado bastante) como isso afetou e afeta as mulheres mães ao nosso redor.

Mulheres que viveram suas histórias de maternar, que viveram (ou não) a possibilidade de prosperar à sua maneira no cuidado de seus rebentos. Mulheres com saberes ancestrais, mitos vivos que sustentaram a rima da poesia do amor de mãe. Isso mexe forte, pois é puro amor. Avós, irmãs, amigas, mães, elas só precisam propagar um amor tão grande que não cabe só no peito e nos pensamentos.

Elas precisam agir, cuidar, repassar tudo o que sabem.

E nesse encontro da tribo feminina, onde cuidar é a grande chave, a gente tem a possibilidade de reconhecer na outra mulher o sagrado amor maior. O acolhimento de quem nós somos, seja a recém mãe que precisa exercer seu instinto protetor, cuidador, nutridor, seja a mulher que sabe, que viveu, que quer construir esse sonho do amor tanto pela criança que chega, quanto pela mãe em estado de esvaziamento de corpo, de emoções, de memórias.

No final, o que nos revela ser sábia é a natureza. A preservação da espécie é mais próspera quando a mãe que pariu recebe o cuidado para que possa se doar integralmente à cria e também quando ela é estimulada e encorajada a descobrir seu próprio caminho da maternagem. E isso é estar em tribo! Devemos dar valor a isso e agradecer imensamente por existirem mulheres que nos cuidam, que nos entendem, que nos preservam, mesmo quando estão longe, como é o caso da minha mãe, da minha avó, das minhas tias. Elas são meu norte mais seguro. Elas são minha tribo! Meu inconsciente traz os registros desse amor maior, e eles se transformam em boa parte da mãe que hoje eu sou. Inclusive me fazendo lembrar o quão injusto é se cobrar e cobrar as mães pela perfeição, tão opressora, tão irreal.

Nesse aproximar da data que celebra a maternidade, convido vocês a agradecerem toda essa rede de mulheres que nos guarda, fortalece e suaviza a estrada da maternagem, sejam elas suas amigas, colaboradoras, colegas de grupo, mães, avós, femininos seres sagrados do amor maior.

Dedico esse texto à Laelcia, Dona Lia, Tia Cris e Tia Filinha, Dona Lígia, Erides e Tita <3

Um ser humano que se encanta por processos de transformação. Doula, Alquimista, Engenheira, Mãe de (quase) 2, Ativista pelo direito das Mães/Mulheres, devota da Deusa Mãe Natureza, Pernambucana de alma e Baiana de coração. Como boa geminiana, é puro movimento do Avô Ar. Ama tanta coisa, que prefere dizer que amo estar viva.

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