Angela Cheirosa, a rainha da Dança do Ventre

“A dança me salvou. Eu precisava ajudar a salvar outras mulheres também”

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Foto: Fernanda Maia
Foto: Fernanda Maia

 

“A vida não é um conto de fadas, menina!”. Se alguém dissesse isso a Angela Cheirosa 12 anos atrás, ela não acreditaria. Naquela época, o mundo era cor de rosa para ela. Estava com o seu grande amor há 15 anos, somava oito de casamento, e desse elo havia nascido Iuri Rafael. Os problemas existiam, é claro, mas eram contornados com amor, paciência e união. A alegria era soberana e o “felizes para sempre” fazia-se presente todos os dias.

Até que, numa manhã fatídica de sábado, essa linda história foi interrompida. Seu esposo, Erico Cheiroso, estava em um ônibus que se acidentou. Infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos.

Mas apesar da notícia desesperadora, Angela não se permitiu esmorecer. Precisava ser forte. Por Rafael, por Cheiroso, por ela. Pela família e pelos amigos que estavam preocupados. Não podia se entregar. Mesmo que estivesse despedaçada por dentro, encarava o mundo como uma leoa. Mas esconder as nossas dores não é tarefa fácil. Prova disso é que, em um ano e meio, ela engordou 40 quilos. “Cair na real foi complicado”, revela. À época, não sabia, mas estava depressiva. Reconhecia, no entanto, que precisava reagir. Recorreu a várias atividades para ajudá-la nesse processo. E foi aí que ela encontrou algo capaz de fazer seu coração se empolgar: a Dança do Ventre.

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Foto: Andréa Magnoni

 

Nas aulas que frequentava assiduamente, encontrou forças para encarar de frente as suas feridas. Dançar lhe fazia tão bem, mas tão bem, que conseguiu superar a tristeza e, aos poucos, aquele sorriso um tanto forçado foi, sinuosamente, tornando-se verdadeiro. Mas, o que havia naquela atividade que a tornava tão transformadora? Ela explica:

“Não é só Dança do Ventre”, diz, com os olhos brilhantes. “É autoestima, autoafirmação. É liderança. Reconhecimento. Empoderamento”, completa. Dançar foi tão mágico para Angela, que ela se sentiu na obrigação de dividir isso de alguma forma. “A dança me salvou. Eu precisava ajudar a salvar outras mulheres também”.

E foi assim que ela começou uma série de especializações na área, tornando-se professora dessa arte. Além de dar aulas em academias, também mantém o projeto social Flor de Lótus, no qual atende gratuitamente, na Associação de Moradores de Buri Satuba, mulheres da região. Nesses espaços, o aprendizado vai além dos passos enigmáticos e fascinantes da Dança do Ventre. “Aprendemos a nos amar como somos”, conta.

A atitude pode até parecer simples, mas não é. “Quando comecei a estudar essa arte, percebi que, de certa forma, havia preconceito com quem não estava dentro do ‘padrão’. Então eu me entusiasmei ainda mais: era a hora de derrubar barreiras. De dizer: sim, nós podemos!”.

E quem é que vai dizer que não podem?

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Dançar em frente a um espelho, apresentar-se em público vestindo roupas que mostram ao mundo suas “imperfeições”, para a maioria das mulheres, pode ser difícil. Mas as alunas de Angela aprendem, a cada dia, como tirar isso de letra. Em cada aula, o amor próprio é cultuado. Juntas, mostram ao mundo que são lindas. São maravilhosas. Não importa se são gordas, magras, altas, baixas, não importa a cor da pele, o tipo do cabelo. O que importa é que elas são as donas do palco. “Mas isso só foi possível porque, antes, aprenderam a ser donas de si”, revela.

Diante disso, Angela assume, com gosto, a responsabilidade de quem virou referência na Dança do Ventre da Bahia. Seja através das aulas, dos eventos que organiza, ou de suas redes sociais, ela segue propagando essa arte sob uma ótica inclusiva. “Há espaço para a diversidade. Todos podem usufruir dos benefícios da dança”, conta.

Cheirosa confessa, ainda, o desejo de ver mais negros na Dança do Ventre. E segue lutando por isso. No ano passado, por exemplo, durante o evento Uma Noite no Oriente, organizado por ela no Teatro Cidade do Saber, encantou o público com o número Belly Black, no qual seis bailarinas dançaram ao som de “Carta de Amor”, de Maria Bethânia. “Foi incrível mostrar para as pessoas a Dança do Ventre com vertente de ancestralidade, dar visibilidade à mulher negra. Ali, naquele palco, empoderadas, pudemos dizer claramente que o lugar da mulher negra é onde ela deseja estar”.

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Por saber disso muito bem, ela segue em busca dos seus sonhos. Por mais árdua que tenha sido a caminhada e ainda que cada dia seja uma batalha, pode afirmar, com certeza, que é uma vitoriosa.

Se há 12 anos alguém dissesse a Angela que a vida não é um conto de fadas, ela não acreditaria. Hoje, se alguém disser, ela também não vai acreditar. O mundo deixou de ser cor de rosa, é verdade, mas Cheirosa aprendeu a reconhecer a pluralidade das cores mesmo quando tudo parece cor de cinza. Em seu conto de fadas real, ter ficado viúva aos 30 anos foi um choque, mas conseguiu dar ao filho a educação que sonhou e conta, cheia de alegria, que ele é um príncipe de 16 anos. Encarou os vilões de frente e sempre contou com o apoio da família e dos amigos que sonharam junto com ela. Aos 42 anos, a filha de Dona Dalva e Seu Miranda acumula duas graduações e está sempre estudando e se atualizando para ser uma profissional cada vez melhor da Dança do Ventre.

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Angela com seu filho Iuri Rafael (foto: Arquivo Pessoal)

Assim, vibrante e entusiasmada, Angela Cheirosa segue bailando com a vida, trazendo no rosto o sorriso legítimo de quem carrega na alma uma alegria soberana:

 “Em mim, a felicidade faz-se presente todos os dias”

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Esse texto foi escrito por Claudia Magnólia. Se gostou, diga: tá legal, tá bacana. Se não gostou, diga: melhore, Magnólia! Mas não deixe de expressar a sua opinião 😉 E-mail: claudiamagnolia@camacarimulher.com.br

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