Café com Cheirosa: Já não se faz amigo como antigamente…

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Senta aqui, vamos discutir a relação. Você anda questionando a quantidade e qualidade das suas amizades, não é mesmo? Eu também!
Outro dia, numa sessão nostalgia, estávamos eu e a velha guarda do Phoc II, relembrando o quanto a gente era feliz, o quando éramos companheiras e o quanto a amizade, a vivência daquela época, construiu bases sólidas pra sustentar os laços de amor, mesmo com o tempo e a distância muitas vezes impostos pelo estilo de vida que cada um assumiu pra si.

A gente frequentava a casa do outro, chegávamos sem avisar pro almoço, pra janta, pra festa de natal, nos aniversários, nos feriados e dias santos. Tínhamos um ritual de brincadeiras, de conversas, conhecíamos todos os integrantes da família do outro e mais, éramos considerados parte da família.

Não importava a distância, íamos para a escola caminhando e no caminho as conversas eram intermináveis. Não tínhamos internet, nem TV a cabo, celulares, nem aplicativos para comunicação. Mas nos entendíamos muito bem. A comunicação era eficiente e sempre dávamos um jeito de nos divertirmos.

Isso tudo é parte de um mundo que não existe mais. É parte de uma forma de ser amigo que não se usa mais. E eu tô achando que a gente se enrolou um pouco no meio do caminho entre o velho e o novo mundo. Eu tô achando que quanto mais ferramentas de comunicação são criadas, mais difícil é estabelecê-la de forma eficiente. Se a gente para pra pensar: “Que tipo de amigo eu sou?” ou “Que tipo de amizades eu tenho?” a gente vai acabar se dando conta que as relações permeiam no campo da superficialidade. É isso, viramos amigos superficiais.

Não sabemos onde o outro mora, porque marcamos sempre num “lugar bacana” pra nos encontrarmos. Não conhecemos a família. A amiga pariu e só conhecemos o bebê por foto em rede social. Falamos o tempo todo de saudade, mas ninguém sai da zona de conforto pra dar fim nisso. Não temos intimidade pra ir na casa do outro sem avisar, sem achar que estamos invadindo ou sendo invadidos. A gente só sabe da vida do outro o que as redes sociais contam. Trocamos o presente e a visita de aniversário por ligação de aniversário, depois torpedo de aniversário, depois textão no Facebook de aniversário e agora uma mensagem pré-pronta de app de mensagem tá de bom tamanho. Tem gente achando que “Bom dia”, “Boa noite” e correntes de whats app é estar em contato.

A gente não aprendeu a fazer novos amigos de verdade e não estamos dando conta de preservar os que já tínhamos. Colocamos a culpa na vida corrida, no trabalho, nos estudos, no tempo e na falta dele ou até no “sumiço” do outro. Mas a grande verdade é que estamos cercados de gente e cada vez mais sós. Porque não temos com quem contar, porque não temos aquele alguém que nos conhece de verdade por perto, sem o oba-oba do “eu te amo” tão sólido quanto pregos enfiados na areia. A gente tá sentindo falta de ter e ser amigo de verdade.

Cheirosa, se você, eu, nós, sabemos de tudo isso, estamos esperando o quê pra dar um basta nessa situação? Sei não! Também tô colocando a culpa no tempo, na vida, nos outros, rsrsrsrs

Eu só sei de uma coisa: Apesar disso tudo que eu escrevi aí em cima, todos nós temos e sabemos quem são nossos amigos de verdade. E talvez esse desleixo com eles seja, justamente, pela certeza de que eles sempre estarão aqui, arrumando um jeito de ser e se fazer presentes.

A gente só precisa tomar cuidado pra vida e o tempo não passarem de tal sorte, que quando a gente queira estar, ser, dizer, fazer, não haja mais tempo, porque aí o bicho pega!

Pense numa coisa que não volta é a oportunidade perdida.

Oia! Eu vou é ali marcar um caranguejo com minhas parças, pra resenhar e falar mal dos ausentes que eu ganho mais…

Esse texto foi escrito por Angela Cheirosa, colunista do Camaçari Mulher. Para ler mais textos desta mulher negra, professora, mãe, bailarina ( e todas aquelas outras coisas que precisamos ser todos os dias), clique no nome dela ali em cima e delicie-se 😉

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