Clarice e eu

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Conheci Clarice Lispector no ensino médio, quando a professora de português pediu que lêssemos Laços de Família. Ali descobri que eu gostava de Clarice.

Mas pouco depois, irritada pelas citações equivocadas que abundavam a internet e pelas leituras precoces e desleixadas que fiz de, Perto do Coração Selvagem e A Paixão Segundo GH, eu meio que desgostei dela.

As coisas ficaram assim até este ano quando, numa aula de Literatura Brasileira, a professora leu conosco o conto A Menor Mulher do Mundo. Aquela aula foi pra mim uma dupla epifania que resultou: 1. Na redescoberta de Clarice; 2. No questionamento das razões pelas quais me afastei dela.

A minha professora sempre problematizava a literatura a partir de recortes raciais, de classe e de gênero. E em meio às suas problematizações percebi que eu, feminista desde sempre, havia caído numa armadilha do machismo.

Assim como em outros espaços da sociedade, a literatura também é um espaço de dominação. E essa dominação tem sido exercida por homens brancos e de classe média, dando pouco lugar às minorias. Neste meio, a expressão “literatura de mulheres”, dificilmente é elogio. O feminino é, muitas vezes, tratado como uma banalidade.

No passado cheguei a pensar a literatura de Clarice como “intimista demais pra mim”. Esta percepção, machista e simplória, em nada apreende a profundidade de sua obra, pois a prosa de Clarice inaugura um “processo de denúncia da […] opressão feminina. O leitor é convidado a refletir acerca da legitimidade dos padrões que regulam as relações conjugais e familiares” (ZOLIN, 2010, p. 187).

Impressionada com a leitura de A Menor Mulher do Mundo, me perguntei como pude esquecer que foi Clarice quem me proporcionou um dos momentos mais prazerosos, vívidos e marcantes de toda a literatura que já li: a da menina com o livro em Felicidade Clandestina. No conto, uma menina anseia por ler Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, e o empréstimo do livro lhe é prometido por uma colega. Esta colega, no entanto, apenas pretende postergar indefinidamente o empréstimo, e o seu sadismo somente é interrompido pela intervenção de sua mãe. Quando, finalmente, está em posse do livro, a protagonista vive o que, para mim, é a descrição mais fiel e emocionante da relação de quem ama literatura com a mesma:

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois, abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade (LISPECTOR apud PERROTTI; PIERUCCINI, 2014, p. 6).

Desvencilhada da armadilha machista que insiste em definir literatura feminina como literatura menor, redescobri Clarice, assim como a menina redescobre o livro em Felicidade Clandestina. Reler Clarice me inundou de emoções, e a alegria deste reencontro foi tamanha que me sinto tentada a fingir que nada aconteceu, somente para poder sentir tudo de novo.

Referências

PERROTTI, Edmir; PIERUCCINI, Ivete. A mediação cultural como categoria autônoma. Inf. Inf., Londrina, v. 19, n. 2, p. 01-22, maio/ago. 2014. Disponível em: <http:www.uel.br/revistas/informacao/>. Acesso em: 15 maio 2017.

ZOLIN, Lúcia Osana. Questões de gênero e de representação na contemporaneidade. Letras, Santa Maria, v. 20, n. 41, p. 183-195, jul./dez. 2010. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/12166>. Acesso em: 15 maio 2017.

Deise Luz é colunista do Camaçari Mulher e só queria ver todos os filmes do mundo. Não é crítica e nem estuda cinema. A função que melhor ocupa é a de uma espectadora fiel, dedicada e ansiosa. Para ler mais textos de Deise, clique no nome dela ali em cima 😉

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