Coluna Elas por Ele: Agredida no funeral do pai

Aos poucos, a sociedade está aprendendo a respeitar a mulher

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Recentemente descobri uma fonte de prazer que por muito tempo subestimei. Se revisitar os grandes clássicos do cinema já é gratificante, ainda maior é a satisfação em apreciá-los pela primeira vez. Volta e meia, obras de ficção do século passado são citadas em filmes e séries modernas e, quando não conhecemos a produção mencionada, acabamos não compreendendo plenamente o motivo da referência. Sem falar que é constrangedor admitir, quando o assunto vem à baila, que você ainda não viu aquele filme que todos já assistiram. Impulsionado por essas motivações, comecei a consumir uma lista de clássicos pendentes e percebi quanta coisa boa eu estava perdendo. Mas, paralelamente, também percebi que boa parte deles reflete os desajustes em relação ao valor e ao respeito para com as mulheres em uma época não tão distante.

Identifiquei uma das “cenas questionáveis” em um filme do brilhante cineasta Alfred Hitchcock. Não, não é a cena do assassinato no chuveiro ao som dramático de violinos. O clássico da vez é o intitulado Ladrão de Casaca, de 1955. Cary Grant interpreta um simpático e galante ex-ladrão de jóias chamado John Robie. No funeral do pai de uma bela moça, em meio ao clima de consternação comum em velórios, a jovem levanta a voz para ele, acusando-o de ser o responsável pela “tragédia”. A reação do galã? Desfere-lhe uma bofetada no rosto, em cheio, e deixa o local cheio de pompa, ainda galã, como se acabasse de praticar uma ação absolutamente normal e, portanto, sem nenhuma consequência, nem naquele instante, nem posteriormente.

Eu, cá, fiquei indignado! Achei um absurdo! E minha reação, em contraste com a de Robie, significa muita coisa. Não acredito que a forma como penso seja algo totalmente singular, pessoal, sem influências externas. Para além da educação familiar, também é reflexo das novas convicções da sociedade contemporânea, das campanhas de violência contra a mulher, da postura de empoderamento adotada pela mulher moderna. Aos poucos, a sociedade está aprendendo a respeitar a mulher. Pouco importa se foi ou não a intenção, mas a verdade é que Hitchcock nos presenteou com uma amostra de má conduta que se torna cada vez mais rara, mas, infelizmente, ainda não foi extinta. Que o darwinismo antropológico continue minando o preconceito e fazendo proliferar a igualdade de direitos.

Esse texto foi escrito pelo colunista do Camaçari Mulher, Wesley Sobrinho, único homem no meio dessas feras. Para ler mais textos desse jornalista que também é poeta e que também é um cara belo, recatado e do lar, clique naquele nome rosa ali em cima 😉

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