Depressão pós-parto, conheça a história de Thalita Freire

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Era 21 de abril de 2016 quando tomei o meu Theo nos braços pela primeira vez. Tudo corria relativamente bem. Aquela cesariana mecânica não era o tipo de parto com o qual eu havia sonhado, mas uma série de motivos fizeram com que fosse assim. Ao meu redor, estava tudo na mais perfeita ordem. Meu esposo, super parceiro, companheiro, esteve ao meu lado em cada instante da gravidez, durante o parto, e nos dias em eu estive no hospital. Meus pais, mesmo morando em outro estado, sempre estiveram por perto. Minha mãe veio de Pernambuco e passou dois meses comigo após o parto. Minha família, maravilhosa, me apoiou o tempo inteiro. Tinha tudo o que precisava. Também não faltava nada para o meu filho. Então, deveria estar tudo bem, mas não estava. Eu não estava bem. Logo no hospital senti que havia algo de errado comigo, mas fui deixando passar, pois tinha lido que era normal a mulher se sentir um pouco deprimida logo após o parto. Era tudo novo e muito estranho. Eu estava muito, muito, muito, ansiosa e com medo. Foi aí que tudo começou. Sentimentos exacerbados. Nunca tinha passado por uma cirurgia, e saber que aquele bebezinho, de imediato, já precisava tanto de mim mesmo eu estando tão debilitada, sangrando, toda costurada, e mesmo assim precisava lhe dar de mamar e não tinha leite, era algo desesperador.

Nesta foto, eu me encontrava mergulhada na depressão pós-parto

Ao voltar pra casa, tudo continuava muito intenso. Precisava aprender a lidar com meu próprio corpo e com as minhas fragilidades, junto com o bebê que precisava de cuidados. Precisava lidar com a demanda de pessoas que estavam na expectativa de ver Theo e que esperavam que eu estivesse bem pra isso, lidar com a minha própria expectativa de cuidar e amamentar o meu filho e não ver isso acontecer de maneira tão eficaz, como eu gostaria que fosse, além do cansaço físico. Eu já não era mais a mesma pessoa, e ao mesmo tempo em que isso era bom, também era ruim. Já na primeira semana, eu fui me percebendo muito frágil e continuei achando que era normal. Com o passar dos dias, eu vi que tinha alguma coisa muito estranha. Fui ficando cada vez mais triste, sem motivação até para amamentar e tudo me dava medo. Não tinha vontade de me arrumar, de sair, não me sentia bem comigo mesma, e eu sentia desespero por isso, queria me sentir bem, me sentir feliz… Eu estava com tudo nas mãos. Apesar de ter adiado a maternidade por diversas vezes, justamente por conta dos inúmeros medos que me assombravam, quando soube que estava grávida me senti feliz, mas ao me deparar com aquele bebê lindo, maravilhoso, saudável e tão dependente de mim, do meu amor, o meu medo se concretizou.

Uma das coisas que eu mais temia antes da maternidade, agora era real: eu estava com depressão pós-parto. Dei início a uma gigantesca luta interior. Ao mesmo tempo em que desejava morrer e por um fim àquilo tudo, havia um amor tão grande pelo meu filho, uma vontade tão grande de enfrentar todos os sentimentos contrários, ver tudo passar e realmente sentir satisfação e prazer pelo que eu estava vivendo. Eu estava adoecendo e algo precisava ser feito. Desmotivação, vontade de morrer, cansaço extremo, apatia, falta de vontade de fazer coisas que antes eram prazerosas, fora a confusão dentro da mente, um conflito constante comigo mesma, estes são alguns dos sintomas da depressão e todos eles faziam parte de mim. E como que uma pessoa que tem como profissão levar a alegria para as pessoas, como alguém tão feliz como eu, poderia estar depressiva? Não há um motivo específico, não existe um por que.

Neste momento eu já começava a me sentir melhor

Busquei a ajuda da Dra. Clêudia Fernandes, uma pessoa maravilhosa e a partir da terapia associada ao uso de antidepressivos, comecei meu processo de cura. Entendi que eu precisava estar forte para poder cuidar de Theo. E foi isso que aconteceu, pois comecei a cuidar de mim, daí as coisas começaram a fluir. Hoje, pouco mais de um ano depois, me vejo grata a tudo isso. Adquiri uma paz muito grande, vivi coisas ainda piores depois disso e consegui suportar.

Hoje, o que sinto, é uma imensa gratidão, por tudo.

Sei que assim como aconteceu comigo, muitas mulheres podem estar passando por isso. É difícil admitir que precisa de ajuda, afinal a gente ouve o tempo inteiro que a mãe tem sempre que se sacrificar pelos filhos, mas o melhor que se pode oferecer a um filho é uma mãe saudável, pronta para ser o que ela tem que ser. Ser mãe, é sim, ir do desespero à alegria em questão de segundos, mas não desista de você. Não tenha medo de demonstrar suas fraquezas. Quando a gente divide nossos temores, tudo fica mais leve. Busque ajuda, lute. Lute por você, pelo seu lar, pelos seus filhos e você vai descobrir o quão forte você é.


Me chamo Thalita, tenho 32 anos, sou artista do corpo, da alma, do espírito, nasci com isso enraizado em meu ser. Trabalho também com fotografia e como contadora de estórias mas, antes, e acima de tudo, hoje, eu sou a mãe do Theo, meu pacotinho de amor, branquinho, gordinho, de cabelos cacheados, o motivo pelo qual precisei renascer.

Fotos: Thalita Freire

Esse texto foi escrito por Elba Coelho. Se gostou, diga: tá legal, tá bacana. Se não gostou, diga: melhore, Elba! E-mail: elbacoelho@camacarimulher.com.br

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