Mulheres que Escrevem: Brincando de casinha

Quando a gente decide ir morar só, a primeira coisa que esbarramos é na responsabilidade

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ep14_carrie_bedroomQuando viramos adolescentes parece que o mundo conspira contra a gente. A nossa mãe se torna o nosso calcanhar de Aquiles e a insistência dela para lavarmos a louça, arrumar a cama,organizar o armário, parece que nunca vai ter fim. Sonhamos com a independência, queremos voar bem alto e ganhar nossa liberdade “morando sozinhas”. Queremos ser como a Carrie Bradshaw de Sexy and the City.

No meu sonho “aborrescente”, morar sozinha consistia em receber meus amigos em casa para uma reunião sem ter hora para acabar. Daria festas todas as sextas e sábados. Poder sair e chegar a qualquer momento sem precisar da satisfação a ninguém. Ouvir minhas músicas nas alturas ou simplesmente assistir filmes até às 5h da matina. Comer em restaurantes todo o tempo e assim não ter que travar uma luta diária com a louça. Que ilusão!

Quando a gente decide ir morar só, a primeira coisa que esbarramos é na responsabilidade. Tornamos-nos responsáveis pela casa, pela limpeza dela, pelo banheiro que precisa ser lavado toda semana, pelas contas, pelo aluguel, pela compra da comida. E se a casa for dividida com uma amiga, ainda é preciso conviver em paz e harmonia e gerenciar a casa na divisão das tarefas. É administrar a grana que em alguns dias do mês fica bem escassa e sair de mercado em mercado fazendo orçamentos. A gente aprende a economizar e usar a quantidade certa de sabão em pó e outros materiais de limpeza. Aprende a congelar a comida que preparamos e evitamos o desperdício. Descobrimos que apagar as lâmpadas quando não estamos no cômodo reflete diretamente no valor da conta de luz.

E se você mora só é ainda pior, porque tudo, absolutamente tudo, depende apenas de você. Na casa da nossa mãe o copo na pia vai parar limpinho no armário. A nossa roupa suja aparece como mágica no armário: limpa, dobrada e passada. A casa e os móveis nunca têm poeira, a cama está sempre impecável. A comida na casa da nossa mãe nunca acaba e sempre tem algo pronto no fogão quando estamos com fome. Na nossa casa não tem magia: ou fazemos ou fazemos. Somos os únicos responsáveis por absolutamente tudo.

Morar sozinha também dramatiza coisas simples, como a toalha que esquecemos de levar para o banheiro e temos que sair molhadas pela casa inteira para resgatá-la. Ou querer morrer ao chegar em casa “varada de fome” e descobrir que na dispensa só há sal e óleo. Qualquer resfriado parece ser uma pneumonia e não tem ninguém para trazer seu chocolate quente na cama ou simplesmente medir sua temperatura.

Mas não é só dissabor a vida de quem mora só. Aos poucos fui entendendo que amo ficar sozinha ao invés de ter minha casa cheia (até porque no outro dia tem que ter muita disposição para limpar e arrumar a bagunça). Amo receber meus amigos em casa, mas em poucos números e que no final eles me ajudem com as tarefas para manter a casa habitável. Tenho esse cuidado pela casa dos meus amigos, então nunca deixo a louça suja para trás e fico muito grata quando meus amigos retribuem o carinho.

Chegar em casa e ficar em silêncio, andar pelada ou mesmo ficar o dia todo de pijama na horizontal com o Netflix e um pote de Nutella, ou saber que sou a única responsável pela louça e por isso mesmo decidi que só vou lavá-la amanhã e não ter ninguém para me criticar ou me julgar, não tem preço. Como tudo na vida, as coisas têm prós e contras e morar só não escapa à regra.

Morar sozinha não é brincar de casinha, mas é gostoso. Às vezes bate aquela sensação que não conseguiremos dar “conta do recado”, mas esse sentimento passa quando chega o final do dia e vemos, simplesmente, que podemos sim, ser quem decidimos ser e que graças a Deus, somos as únicas responsáveis pela nossa casa e pela nossa vida.

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elaine limaEsse texto é de autoria de Elaine Lima,  amante de gatos, boas músicas e excelentes companhias e batons vermelhos. Chata por natureza, aprecia sem esforço um bom livro, um vinho ou um filme. Casada e mãe de duas felinas Neném e Phoebe, acredita que pode dominar o mundo quando usa um batom novo e mantém controlada a Drag que vive dentro dela.

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