Precisamos falar: nunca quis ser mãe!

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Hoje em dia até se tornou comum encontrar mulheres que não querem ter filhos. O que não é comum são outras mulheres aceitarem isso como opção. Há toda uma militância e um romantismo em torno da maternidade, que até parece um crime a mulher optar por não ter filhos ou mesmo fazer um aborto. A decisão de não ser mãe, além de criticada por outras mulheres, é altamente cobrada pelos nossos próprios pais, que sonham em ser avós e projetam em nós a responsabilidade de realizarem esse desejo. Em tempo: não há nada de errado em não desejar ter filhos.

“Mas filho é o maior amor do mundo”, “só quem é mãe conhece esse sentimento tão maravilhoso”, “amor de mãe é incondicional”, “a maternidade transforma a mulher”. Não há dúvida alguma sobre essas afirmações. Mas existem mulheres que não querem ter filhos ou não têm a mínima vocação para serem mães. Isso é uma opção e deve ser respeitada. Ninguém é obrigada a ter filhos, independentemente da razão. O que existe por aí é muita gente “tendo bebês” ao invés de filhos. Ter filhos, além de ser um desejo, deveria ser um compromisso com a educação e a formação do caráter daquela criança, e isso vai muito além de pagar escolas caras e levar para a Disney nas férias. É lamentável ver crianças mendigando afeto, aproveitando apenas as sobras de tempo que lhes são concedidas. É uma conta simples, quanto menos tempo, menos carinho, menos atenção.

Filhos são seres humanos que necessitam de atenção, principalmente nos primeiros anos de vida quando ela deve ser quase total. São extremamente dependentes e precisam do nosso tempo, amor, energia, dedicação e de uma rotina. Filho precisa da mãe. Ele quer ouvir histórias antes de dormir, quer beijos, abraços, disponibilidade de tempo (e que este seja qualitativo), ajuda na lição da escola, que a mãe ouça tudo o que aconteceu durante o seu dia, companhia para as brincadeiras. Filho precisa da vigilância da mãe quando está doente, mesmo se ela trabalhou durante o dia inteiro. E, o mais importante: filho precisa de educação e carinho. Filho é prioridade e não uma pessoa a quem você “encaixa um tempinho” entre o trabalho e a academia. Filho não é um brinquedo que você pode colocar na estante quando enjoa ou cansa dele.

Agora vem a questão. Você está disposta a se dedicar tão intensamente a uma pessoa e atender a todos os anseios citados acima? É realmente uma vontade ser mãe ou é apenas cumprimento do “dever social”? Tem real vocação ou está se deixando levar por um padrão imposto? Deve seguir a natureza porque a mulher nasceu para ser mãe? Pra dizer que é uma mulher plena porque conseguiu ter sucesso, um casamento feliz e um filho?

Ilustrações: Jade Nordah

E quando a resposta for “não quero ter filhos”? Você não pode julgar alguém que assume não estar disposta e não querer se comprometer e se dedicar exclusivamente a uma pessoa. Que não quer ser a responsável pela vida de outro ser humano. Ter filhos é um investimento altíssimo de sentimentos, tempo e dinheiro. Não é crime em querer dormir ou acordar a hora que quiser. Ou ir para onde der na telha, independente do local ou horário. Viajar sem precisar escolher roteiros kids. Não querer ir pra festinhas infantis nem a reuniões escolares.

E a falta de vontade de ser mãe pode ir além do não querer se dedicar a uma pessoa. Tem a questão da violência, da pessoa não ter estrutura psicológica ou financeira, a vontade de se dedicar apenas à carreira, de não querer passar por uma gestação, de depender da ajuda de uma babá, de um parente ou de uma creche para conseguir trabalhar, de achar que o mundo já está cheio o suficiente ou simplesmente não querer. Assim, simples! Independente do motivo, o desejo de não ser mãe não pode ser visto como um ato de egoísmo.

E para as mamães militantes de plantão que afirmam: “os filhos vão cuidar da gente quando ficarmos velhos”. Não é um tanto presunçoso afirmar que um filho vai cuidar de você quando envelhecer e vai garantir o seu futuro? Não é altamente egoísta achar (e querer) que os filhos virem cuidadores de idosos? E mesmo tendo esse pensamento e expectativa, qual é a garantia de que um filho vai cuidar de você ao invés de colocá-la no primeiro asilo que encontrar pela frente? Não é injusto colocar um ser no mundo com a responsabilidade de que ele trará algum retorno? Isso sim é egoísmo.


É uma escolha querer, ter filhos ou não. Ter uma família “tradicional” ou não. O que a mulher decidir fazer com o próprio corpo e com a vida, só diz respeito a ela. E não tentem achar um motivo específico para suas escolhas. É uma decisão que pode ter um, dois, cem ou nenhum motivo. E tem mais: a mulher que não quer ser mãe não odeia crianças ou é totalmente incapaz de cuidar de uma. E o fato de não querer ter filhos, não significa que não são carinhosas ou que não têm capacidade de demonstrar afeto a outras pessoas. Não é exclusividade da maternidade o sentimento de cuidar do outro. Ser carinhosa ou cuidadosa com outras pessoas é uma questão de personalidade. Quando falamos de pessoas, os sentimentos não são verdades universais.

Ser mãe é desfrutar de um amor único, incondicional e viver para outra pessoa. Não ser mãe é desfrutar o prazer de viver só pra si e ter total autonomia da vida. Só quem é mãe vai saber como é grande e pleno esse amor. Só quem não é mãe vai saber o quanto é bom essa liberdade e se realizar como ser humano sem dependentes. Infelizmente não há como trafegar por esses dois mundos e por isso um não pode e não deve julgar o outro. Tudo é uma questão de escolha!

Amante de gatos, boas músicas e excelentes companhias e batons vermelhos. Chata por natureza, aprecia sem esforço um bom livro, um vinho ou um filme. Casada e mãe de duas felinas; Neném e Phoebe, acredita que pode dominar o mundo quando usa um batom novo e mantém controlada a Drag que vive dentro dela.

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