Questão de Opinião: Machistas não passarão

por

Antes de mais nada, gostaria de dizer que é um prazer imenso produzir conteúdo pro Camaçari Mulher. Fiquei por dias pensando que tipo de assunto eu poderia agregar, mas cheguei à conclusão que não há o que falte por aqui. Tem uma riqueza de temas. Mas eu gosto de falar, gosto de ouvir, ler e, sobretudo, eu gosto de escrever, de opinar. E trazer minhas ideias poderia ser, de algum modo, enriquecedor pra discussões, você concorde comigo ou não. No mínimo, teremos uma construção de objeções sadias, porque eu sempre vou dar pitaco em tudo!

E um dos grandes assuntos dos últimos dias foi o assédio do José Mayer contra a figurinista Suslem Tonomi. E, na carta de desculpas, ele atribuiu seu comportamento, cá entre nós, deplorável, ao fato de vir de uma geração misógina. Não que eu acredite nisso, mas será que essa geração que está aí também não vem criando machistas?

Coincidentemente, dia desses estava conversando com uma amiga minha, mãe de um menininho de um ano, o quanto está nas nossas mãos, que somos mães e pais, criar uma geração futura menos preconceituosa em relação a gêneros. E a minha amiga me atentou pra um fato: a dificuldade em ser mãe de menino e tentar dar a ele valores de igualdade sexual quando todo o resto vai de encontro.

Porque são nas pequenas coisas que mora o machismo. Como no dia em que a minha amiga, a mãe do menininho, foi numa farmácia comprar a chupeta pro filho e não tinha azul. Na falta, comprou rosa. Era a que tinha, a funcionalidade era a mesma e além do mais, é só uma cor. Mas acredite que nessa boba diferença, algumas pessoas que viram seu bebê de chupeta rosa desferiram fortes críticas. Rosa é cor de menina, menino usa azul! Me digam, pelo amor da Deusa, onde está fincada essa regra?

Vocês já observaram que menino tem amiguinhos, mas não tem amiguinhas? Meninos têm namoradinhas! A sociedade sexualiza até uma primeira interação, tão livre de maldades. Socorro!

Precisamos parar com isso e precisamos parar agora! Eu sou mãe de uma menina e adoro ver minha filha de azul, adoro ver minha filha brincando do que ela quiser. Esses dias, fui à uma loja de brinquedos e na sessão estipulada pra ser de menino tinham várias opções, o garoto pode ser o que ele quiser. Mas na das meninas só vi bonecas, fogão, panelinha e, acredite, até uma vassourinha. Minha filha ama dançar e eu gosto de ver o quanto a dança alegra ela, mas todas as vezes que alguém presencia, prontamente que me fala: essa aí vai te dar trabalho”. Trabalho por que? Porque é feliz? Porque gosta de se expressar com o corpo?

Coisas assim, tenha certeza, refletem lá na frente, quando a mulher se anula, não se permite, quando dizem a ela que certa coisa não é adequada pra uma “mulher direita”. Até no momento de uma relação sexual, onde o prazer da mulher muitas vezes é neutralizado pra ser subjugado ao prazer do homem. Muitas sequer se tocam porque acreditam que é errado, como se a mulher só pudesse gozar através de um homem. Está aí, inclusive, a sementinha da cultura do estupro.
A gente precisa parar de condicionar desde cedo que as mulheres cuidam do lar e os meninos ficam com a diversão. Eles têm a liberdade de se imaginarem em diversas situações, e nós podamos, ceifamos desde cedo as possibilidades da imaginação de uma menina. E aí, damos aos meninos a sensação de que eles podem tudo, enquanto as meninas precisam saber que para elas, existe um lugar com limites já demarcados.

Minha filha tem tantas bonecas que ganhou de presente, inclusive repetidas, já sabe ser a mãe perfeita, põe pra dormir, dá gagau, isso com menos de dois anos de idade. Ela não pode? Pode! Ela pode sim brincar de ser mamãe, e quando pega uma bonequinha eu super incentivo e compartilho. Mas também quero que ela saiba que pode brincar do que quiser, a hora que quiser e no momento que quiser. E que leve isso pra vida. Inclusive se ela não quiser ser mãe, se decidir ser engenheira, se quiser viajar pelo mundo ao invés de construir família… desde cedo nossas meninas precisam conhecer a liberdade de escolha. Assim como nossos meninos precisam saber que a masculinidade deles independe de estereótipos. Seu filho não será menos homem se usar uma chupeta rosa. Até porque nessa idade, ele nem sabe a diferença. E ele só vai achar que existe uma diferença se você assim ensinar.

Tudo começa na primeira infância, nesses condicionamentos subjetivos. Pode parecer bobagem, pouco, mas acreditem: é na fase de formar opiniões, comportamentos e ideais que a gente faz o ser humano. Humanos como José Mayer, como Caio Blat, como Juliana Paes. Pessoas que acreditam que gênero segue regras.

Quer saber o tamanho da urgência de construirmos gerações menos misóginas? Precisou o Zé Mayer admitir publicamente o que fez, pra muitos (e muitas, infelizmente) acreditarem na palavra de Suslem. Precisou da palavra de um homem pra validar o que disse uma mulher.

E ainda tivemos que escutar o Oscar Magrini dizer que a mulher precisa “se colocar pra não instigar o homem”. Não, meu querido. O homem precisa se colocar pra entender que não, é não. E eu posso andar de biquini, de saia, vestidinho, que não vai diminuir o meu NÃO nem anular o tamanho da minha personalidade.

Tirem esse machismo do seu coração, moços e moças. Principalmente, tirem o machismo do nosso caminho, porque é nosso direito passar. E a gente vai pra onde quiser.

Camila Mandarino, vinte e tantos anos. Mãe de Mafê, da westie Lily e de quatro peixes, é formada em Publicidade com MBA em Comunicação Corporativa. Como uma boa capricorniana com ascendente em Áries, não perde a oportunidade de falar, escrever e opinar sobre tudo e sobre todos, sabendo que a verdade pode não ser fácil. Mas é libertadora.

Comentários

comments

Leia Também