Questão de opinião: O que vale é o conteúdo

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Socorro! O mundo agora é fitness. E vou dizer: um saco. Principalmente porque eu estou na contramão, não tenho vocação pra dieta, e no dia que me virem lendo uma embalagem pra saber se o produto tem ou não glúten e lactose, entendam: é um sinal de que as coisas não estão bem e estou sendo sequestrada ou algo assim. Nessa onda, toda hora a gente se bate com receita fit, exercícios, dietas, os cinco passos da barriga negativa e etc. O que vos ofereço, meus amigos, é a libertação. Se, assim como eu, você não dispensa uma coxinha e uma cerveja em plena terça-feira, esse texto é sobre a gente.

O bom da vida é comer. Se alguém aqui acha que eu como sem culpa está muito enganado. Me culpo tanto, a ponto de, muitas vezes, ficar insatisfeita com a roupa que eu visto e nunca, jamais, em hipótese alguma, colocar a barriga pra jogo. Mas a diferença é que isso não me impede de atender os desejos da minha mente e do meu estômago. Já aprendi que a barriguinha saliente é efeito colateral disso: eu, inclusive, vivo uma relação de amor e ódio com a minha. Sabe como é… vejo cada pessoa linda na academia, mas não estou nem um pingo disposta a passar o que aquela pessoa linda passa pra chegar naquele nível. E quer saber? Acho que ninguém deveria, pois a gente sabe, inclusive essa galera (no fundo… bem lá no fundo), que a embalagem é o que menos importa. Ela foi feita pra vender uma ideia, que não necessariamente corresponde ao conteúdo. Com o corpo a analogia funciona da mesma forma.

É complicado, principalmente pra quem tá solteiro, esse nível tão alto de perfeição no padrão de beleza. Porque a gente só quer alguém pra dar uns beijos, dividir o dia, ouvir o especial de Só pra Contrariar e Raça Negra e fazer ousadia. Mas a exigência tá tão grande que, mais um pouco, vai precisar fazer prova com redação igual ao ENEM e teste de esforço físico pra arranjar um boy.

E aí, na paquera, essa coisa do fitness vira problema sério. Eu sou nova no ramo de frequentar academia. Já ouvi falar que é um território bacana pra conhecer gente nova mas discordo. Lá eu passo mais vergonha do que malho. Porque os caras “topzera” da academia são aqueles que, até vendados e bêbados, sabem as séries e os treinos da semana toda! Eu me sinto mais deslocada do que se eu tivesse numa convenção de jogadores de xadrez (e eu não jogo xadrez). Tem tanta mulher que parece que saiu da revista Boa Forma, segue o instagram de Pugliesi e come omelete três vezes ao dia, enquanto eu, vim no mundo pra ser um projeto de Bridget Jones ambulante.

No treino, eu fico perto da galera que se acha acima do peso, ou dos que mentem que fizeram 3 séries de 12, mas na verdade foram 2 de 10 e uma de 8, já pela misericórdia. Me sinto alma gêmea do pessoal que faz 10 minutos de esteira pedindo a Deus que aquilo diminua o peso na consciência que a lasanha do almoço causou. É bacana porque entre um aparelho e outro sempre rola aquele olhar de compreensão e solidariedade, a gente murmura um “você consegue” pra se apoiar, é lindo. Está realmente fora de cogitação eu desenvolver um lance com um ser humano que inicia o flerte com a seguinte frase: “e a dieta?” A dieta foi pra casa do cacete, meu amigo. Eu quero é que você me chame pra comer pastel! Perco o tesão NA HORA se o cara me disser que não come pão branco ou não toma refrigerante. Querido, eu uso aquela calcinha que aperta a barriga pra disfarçar que tomo coca-cola com pizza gelada no café da manhã, acorda!

Por favor, mundo. Cobre menos esse padrão de beleza! Vamos aceitar melhor nossos corpos, entender que gordura localizada quer dizer que o fim de semana foi cheio de prazeres gastronômicos ou que a gente prefere ficar deitado vendo Netflix ou lendo um livro ao invés de correr a São Silvestre no tempo livre. Que a gente bebeu mesmo, comeu mesmo. Que mal há nisso? O que realmente importa vai muito além das medidas e do número que a gente veste.

E outra! A geração fitness precisa parar de usar o jargão de saúde, porque quando o objetivo é hipertrofia, não se trata disso. Normalmente é só estética mesmo e me preocupa um pouco o quanto isso torna as coisas superficiais, as relações superficiais, e afinidades deixam de ser importantes, gentilezas vão para o segundo plano pois fulano é gostoso pra caramba ou ciclana tem a bunda empinada, e é o que vale.

Mas vou continuar na academia. Não pra paquerar, já desisti no segundo dia. Mas pra alimentar mais a sensação ridícula de que a endorfina ajuda a aliviar a culpa das trocentas calorias do jantar. Brincadeiras e críticas exageradas à parte, é importante manter o corpo em movimento, seja com musculação, pilates ou corrida. É saudável, se parar a gente enferruja que nem engrenagem velha. Mas isso não tem que definir de jeito nenhum quem somos. Precisamos enxergar o mundo um pouquinho mais pelos olhos do personagem do Jack Black no filme “O amor é cego” e menos pelos olhos da superficialidade. O mundo tá ficando chato. Deve ser abstinência de glúten.

Camila Mandarino, vinte e tantos anos. Mãe de Mafê, da westie Lily e de quatro peixes, é formada em Publicidade com MBA em Comunicação Corporativa. Como uma boa capricorniana com ascendente em Áries, não perde a oportunidade de falar, escrever e opinar sobre tudo e sobre todos, sabendo que a verdade pode não ser fácil. Mas é libertadora.

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