Todos os filmes: Mulheres envelhecem, homens não

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Ou pelo menos pra indústria do entretenimento é assim que funciona. O tratamento desigual que Hollywood e os estúdios de TV dão às atrizes e aos atores que passam dos 40 anos não é nenhuma novidade. Aliás, a invisibilidade de consideráveis parcelas da população nos filmes e séries que consumimos não é uma novidade.

Todos nós já vimos filmes em que um homem de mais de 50 anos tem como par romântico uma jovem de 20 e poucos. Para eles, sobram papeis de galãs. Para as mulheres dessa idade, no entanto, os papeis começam a faltar. Atrizes que passam dos 40 (às vezes nem isso) tornam-se as mães de alguém, as avós de alguém, se distanciando cada vez mais do protagonismo. Coincidentemente (ou não) estou vendo duas séries que tem muito a ver com isso. A primeira é Feud: Bette e Joan, a segunda é Big Little Lies, ambas deste ano, ambas maravilhosas.

Feud é uma criação de Ryan Murphy (de Glee e American Horror Story) e tem Jessica Lange e Susan Sarandon como as atrizes Joan Crawford e Bette Davis. A palavra feud significa desavença ou, no popular, TRETA. E a treta entre Bette e Joan foi A treta. Confesso que, de início, comecei a série pela oportunidade de ver esses ícones do cinema ganhando vida novamente (e pela treta!). Mas conforme assistia me surpreendia com a abordagem delicada, necessária e ao mesmo tempo triste. Bette e Joan poderiam ter sido amigas e aliadas, mas foram rivais e o cinema explorou e lucrou com isso. Mesmo consagradas e ganhadoras do Oscar acabaram, depois dos 50 anos, competindo por papeis ruins e aquém do seu talento. “Marlon Brando não teria que fazer isso”, diz Bette num dos episódios. A própria, irônica e afiada, chegou a publicar um anúncio num jornal à procura de emprego.

Não estamos mais nos anos 1960, época em que se passa Feud, mas as coisas não mudaram muito. Idolatramos Meryl Streep sim, mas quantas mais além dela? Condenamos e ridicularizamos atrizes pelo excesso de botox, mas como julgar que cedam à pressão pela juventude quando é justamente essa a condição colocada ao seu trabalho? Nesse sentido, Big Little Lies é outro exemplo. O livro de mesmo nome da escritora Liane Moriarty virou série por iniciativa da atriz Reese Witherspoon, que montou uma produtora para incentivar a presença feminina no cinema e na televisão. A série tem a própria Reese no elenco, além de Nicole Kidman, Laura Dern, Shailene Woodley e Zoe Kravitz. Protagonistas mulheres, temas femininos e personagens que vão de poderosas empresárias a mães e vítimas de relacionamentos abusivos. Ou tudo isso junto, porque uma coisa não anula a outra.

Big Little Lies mereceria um texto só pra ela. Aliás, dois textos! Ou melhor, dez textos, dadas as suas tantas qualidades. Mas, por enquanto, só quero dizer como é bom ver a nós, mulheres, retratadas como realmente somos: complexas, autônomas, com variados interesses e também problemas. E como protagonistas, escapando ao papel de coadjuvantes – as eternas esposas, filhas ou mães de alguém – a que tentavam nos relegar. Representatividade importa sim.

Deise Luz é colunista do Camaçari Mulher e só queria ver todos os filmes do mundo. Não é crítica e nem estuda cinema. A função que melhor ocupa é a de uma espectadora fiel, dedicada e ansiosa. Para ler mais textos de Deise, clique no nome dela ali em cima 😉

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