Tricotando com a talentosa atriz Kátia Letícia

Chegue mais: venha conhecer melhor essa linda artista da nossa cidade

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foto: Suelen Vasquez
foto: Suelen Vasquez

É preciso um esforço muito grande para não se apaixonar por Kátia Letícia. Dona de um talento indiscutível e um sorriso arrebatador, ela é daquelas mulheres que sabem seu lugar no mundo, que peitam a vida com coragem, mas nem por isso perdem a leveza e a alegria.

Nascida no município baiano de Alagoinhas, veio para Camaçari aos cinco anos de idade, onde mora desde então. Formada em publicidade, enveredou no ramo artístico meio sem querer, mas quando viu, já estava se sentindo tão à vontade no palco que abraçou, de todo o coração, a profissão de atriz. Em nove anos de carreira, já atuou em 10 espetáculos teatrais, participou de séries, curta metragens e é, ainda, uma das fundadoras da CompanhiaUmadaOutra, que se caracteriza pela produção de trabalhos autorais  como a peça “Elenco de Apoio”,  que lhe  rendeu dois prêmios de “Melhor  Atriz” em festivais.

Kátia é a primeira convidada do Camaçari Mulher para uma sessãozinha de tricô. Não que a gente goste de saber das entrelinhas e dos pormenores da mulherada, mas de vez em quando…que mal há, não é verdade? Então, puxem a cadeira, peguem um cafezinho, tirem as agulhas do bolso e venham com a gente tricotar e conhecer melhor essa linda artista da nossa cidade:

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Você sempre quis ser atriz?

Não, não…começou de maneira despretensiosa. O que era para ser uma experimentação na primeira turma de teatro da Cidade do Saber, acabou se transformando num grande mergulho, um verdadeiro encontro. E lá se vão nove anos!

Nesse tempo todo, qual foi o momento mais especial?

Tem sido desde o início. É especial porque, a cada dia, faço da arte a porta-voz de mim, dos meus sentimentos, pensamentos e visão de mundo. É através do teatro que eu me coloco à disposição do outro, buscando entender a complexidade da vida, a complexidade de ser. O teatro para mim é um grande espelho que quase sempre reflete o encontro comigo e com as minhas

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Katia e a amiga Fernanda

verdades.

É especial, ainda, porque proporcionou um dos mais benditos encontros da minha vida: o encontro artístico com minha
grande amiga, Fernanda. Decidimos caminhar juntas e fundamos a Companhia UmadaOutra de Teatro, o retrato de nós que, corajosamente, oferecemos ao mundo.

E qual foi o momento mais difícil?

Também tem sido difícil desde o início (risos). Ser atriz do lugar que eu vim, e no lugar em que estou, é um ato de resistência e coragem. O mercado da produção artística, por mais sedutor que pareça, é emperrado por inúmeras limitações, principalmente pelo preconceito e pelos padrões estabelecidos. Além da luta pessoal cotidiana para ser uma artista razoável, tenho que estar sempre em prontidão para não esmorecer diante de um mercado que não enxerga indivíduos e, sim, estereótipos.

O ser atriz tem que estar sempre à frente de mim, para não permitir me enquadrar em rótulos que são facilmente colocados numa artista que é mulher, preta, pobre e mora no interior. Nesse caminho, por exemplo, inúmeras foram as tentativas de sexualização da minha imagem e, em todas estas vezes, eu disse não!

Por que?

Porque o meu papel como alguém que compreende todos os traços e representações históricas, principalmente da mulher negra é o de enfrentamento a esse pensamento que, desde o período escravocrata, nos coloca na posição de objeto sexual. Então, quando recebo convites para representar uma mulher de biquíni rebolando ou que tenha que estar em um determinado lugar para seduzir um gringo, contribuindo para o estigma de mulata gostosa, por exemplo, minha consciência diz que não, entende?! Pelo contrário: quero utilizar a arte como política de enfrentamento a esse tipo de agressão que nós, mulheres, sobretudo negras, sofremos o tempo todo.

É…já deu pra perceber que não é uma carreira simples, mas, apesar disso, você está feliz. O que mais te realiza nesse caminho?

A minha realização é estar em contínuo processo de criação. Seja construindo um texto, seja criando a gênese de um personagem, seja experimentando novas técnicas, conhecendo outros profissionais, não importa. O que importa, mesmo, é que haja sempre possibilidades de trocas, de expressão e de encontros, coisas que me trazem grande potência de vida.

Então, qual mensagem você deixa para as leitoras que estão pensando em se tornar atrizes?

O caminho só se faz com paixão e disciplina. É a paixão que vai fazer com que se tenha coragem e vontade de se desnudar diante de tantos desconhecidos. É a paixão que vai impulsionar a continuar caminhando, mesmo quando o caminho parece não existir, mas é a disciplina que determina até aonde se vai. A arte nos possibilita encontros e desencontros, nos desconecta de muita coisa, nos coloca diante dos nossos maiores conflitos, mas também nos dá um senso de poder e inteireza.
Desejo, a todas as aspirantes, que se conectem com a humildade e com a sua verdade, a sua honestidade. Ser atriz não é ser mais bonita que ninguém, não é ser melhor que ninguém, não é ser mais especial que ninguém. Ser atriz é um ato de negação constante de si, a fim de encontrar-se com outros “eus” e, assim, ser possível conviver, cada vez mais em harmonia com as diferenças, sendo um dos instrumentos para transformar este mundo num lugar de evolução. Ser atriz, mais do que divertido, é uma responsabilidade.

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Esse texto foi escrito por Claudia Magnólia. Se gostou, diga: tá legal, tá bacana. Se não gostou, diga: melhore, Magnólia! Mas não deixe de expressar a sua opinião 😉

E-mail: claudiamagnolia@camacarimulher.com.br

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