Um Senhor Estagiário, o primeiro filme da sua vida e outros temas

Assim como nós, o cinema está sempre se reinventando e se transformando

por

Qual foi o primeiro filme da sua vida? Eu tive vários. O primeiro filme de terror foi Pânico, o primeiro filme cujas falas decorei foi As Patricinhas de Beverly Hills, o primeiro filme que vi no cinema foi X-Men 2 e o primeiro que despertou a cinefilia em mim foi A Princesinha. Este último foi o primeiro que me fez começar a olhar pro cinema como cinema, como algo que ia além de uma sucessão de imagens que estava ali só pra me distrair, como algo além da fita VHS do Pluto que meu pai alugava pra mim.

Assim como nós, o cinema está sempre se reinventando e se transformando, e as primeiras experiências cinematográficas mudam muito de uma geração para outra, tanto em conteúdo quanto em formato. Quando criança eu só via os filmes que alugávamos ou os que passavam na televisão. Nada de download, nada de Netflix. Já a minha sobrinha nascida em 2011 dificilmente saberia dizer o que é um VHS. Da mesma forma, no ano passado desenvolvi um projeto com os meus alunos de Sociologia em que eles veriam filmes que mais tarde associariam com temas sociológicos afins. Evitei clássicos muito antigos que pudessem criar uma barreira e rejeição imediatos e escolhi títulos de finais dos anos 1990, no máximo. Porém os meus alunos, adolescentes que são, acharam velhos os filmes de 1998, 1999 e 2000 que pra mim ainda pareciam tão recentes.

Esse choque de gerações não apenas circunda nossa relação com o cinema, mas também, como não poderia deixar de ser, vira tema para ele. Somos cada vez mais afetados nos dias de hoje pelas tecnologias, pela Internet, pelas redes sociais, que alteram várias dimensões de nossas vidas, desde o entretenimento até o trabalho. Um filme que a meu ver trouxe uma boa abordagem de tais transformações e seus impactos em diferentes gerações foi Um Senhor Estagiário (2015). No filme, Jules (Anne Hathaway) é uma empresária que começou uma loja de roupas na internet e logo fez sucesso, passando a contar com altos investimentos e mais de duzentos funcionários. Sua empresa toda moderninha, por onde Jules até transita de bicicleta, abre um programa de contratação de estagiários na terceira idade e aí é que entra Ben (Robert De Niro).

THE INTERN

Eu relutei em ver esse filme porque passei um bom tempo sem gostar de Anne Hathaway, mas agora gosto. Isso porque sou do contra e diferentona e imagino que quando me dei conta de que muita gente também não gostava dela, aí eu quis gostar. O filme me agradou pelos seguintes motivos:

  1. Ele fala de internet, redes sociais e do uso que a sociedade atual faz da tecnologia sem forçar a barra, soar artificial e cair no didatismo de “a revolução da Internet já é uma realidade!” Nossas vidas estão diferentes sim, usamos as redes sociais de uma maneira simbiótica que afeta nossa cultura sim e acho legal o cinema abordar isso sim.
  2. O filme parece uma espécie de continuação de O Diabo Veste Prada. E eu nem tenho nenhuma relação especial com O Diabo Veste Prada, mas achei interessantes os links entre um e outro. É como assistir Anne Hathaway presa num universo paralelo que envolve moda, mulheres modernas lidando com a pressão da carreira e maridos babacas.
  3. O filme oferece, além daquele sobre a Internet, outro panorama social interessante: aquele referente às mudanças no mundo do trabalho e em como elas atingem diferentes gerações. Eu já fiquei com vontade de pedir aos meus alunos de sociologia que assistam.

Veja bem, não estou dizendo que o filme é equivalente a um TCC sobre relações de trabalho, tecnologia e conflitos geracionais. Trata-se de um filme leve e divertido, mas que oferece um pano de fundo interessante. Além disso, ainda tem o mérito de focar num protagonista mais velho, o que particularmente me agrada, visto que no tocante ao cinema comercial estamos reféns dos padrões de gente perfeita e eternamente jovem, o que me incomoda bastante. No mais, tem tudo que mais me agrada no cinema: personagens interessantes (com a preocupação essencial de tornar até mesmo os personagens secundários atrativos), narrativa simples, boa condução, boas atuações, Robert De Niro etc. Tá recomendado.

 

Deise Luz é colunista do Camaçari Mulher e só queria ver todos os filmes do mundo. Não é crítica e nem estuda cinema. A função que melhor ocupa é a de uma espectadora fiel, dedicada e ansiosa. Para ler mais textos de Deise, clique no nome dela ali em cima 😉

Comentários

comments

Leia Também