Você tem tempo para ler?

A formação do leitor é, sobretudo, um hábito

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Eu já usei esta coluna para perguntar se ainda existe espaço para a leitura na internet. Agora uso para perguntar se há espaço para a leitura na sua vida. Eu tenho certeza que, ou você já disse, ou você já ouviu alguém falar que não tem tempo para ler. E eu acredito! Acredito mesmo.

Eu mesma, leitora de ritmo constante desde a infância, leio predominantemente em ônibus, e se passo um período sem precisar me locomover assim o meu ritmo de leitura já cai vertiginosamente. Então não é que eu vá entrar na sua semana e dizer: “você tem tempo sim que eu sei!”. Não é que eu vá bater na sua porta e dizer : “boa noite, senhora, você tem tempo para ouvir (ou melhor, ler) a palavra dos livros?” Eu entendo que às vezes a gente não tem mesmo. É só que eu acho que acabamos recorrendo a essa afirmação – a de que não temos tempo – pela força do hábito.

E que hábito é esse de negar a leitura como uma possibilidade? Acredito que ele seja formado por muitas variáveis, desde econômicas até históricas e culturais. Algumas: nossas rotinas massacrantes de trabalho; nossa prioridade em garantir as contas pagas, a sobrevivência, o “vencer na vida”; nossa relação com a tecnologia e outros meios de comunicação que suplantam o tempo para os livros; a ideia absolutamente equivocada de que a leitura começa e acaba com a escola e a faculdade. Ou seja, de que ela se restringe ao ensino formal. Ou pior, a ideia de que a leitura é chata. Ou ainda muito pior, a ideia de que a leitura é inútil e não vai levar a nada. As práticas de leitura dos brasileiros constituem tema tão complexo que mereceriam um post à parte.

Hábito

Quando entrei na minha primeira faculdade, depois de ouvir tanta gente dizer ser impossível conciliar a leitura por prazer com a leitura obrigatória das disciplinas, lembro de ter cedido momentaneamente ao “não tenho tempo pra ler”. Eu cedi, mas só até me indagar se eu realmente não tinha aquele tempo e concluir que, sim, eu tinha, nem que fosse o tempo dos ônibus, nem que fosse o tempo das filas. Até andando na rua eu já li (não recomendo, é perigoso). Também já li em ponto de ônibus debaixo de chuva, uma mão no livro, a outra na sombrinha.

O que estou dizendo é que se eu consegui incorporar a leitura como um hábito, todos também podem, e DEVEM, conseguir? Não mesmo. Isso seria arrogante. Além disso, não dá pra usar experiências pessoais (muitas vezes cercadas de privilégios) como parâmetros de experiências coletivas. Isso seria desonesto. Quero apenas refletir que a formação do leitor é, sobretudo, um hábito. E todo hábito requer iniciativa, constância e insistência. Até já li por aí que para um hábito se consolidar de verdade é preciso que a gente se dedique a ele por três meses. Na grande lista dos hábitos que tentei em vão incorporar estão dormir cedo e economizar dinheiro (risos nervosos), e na lista dos incorporados com sucesso estão passar protetor solar todos os dias, manter uma agenda semanal organizada e levar um livro sempre comigo.

Hoje em dia, com as redes sociais, não resta dúvida de que facebook, instagram, WhatsApp e companhia nos consomem alguns dos preciosos momentos que poderíamos dedicar aos livros. E eu me incluo aí. Depois do cansaço do trabalho e de outros compromissos, muitas vezes, tudo o que queremos é ficar ali, apenas existindo (ou existindo só um pouco), consumindo a informação rápida e direta que a internet propicia. Isso meio que nos anestesia e nos faz pensar em nada mesmo diante do turbilhão de informações que recebemos através de nossos dispositivos. E eu acho, na verdade, que essa experiência tem o seu valor, não estou sequer disposta a abrir mão dela, mas me culpo por não conseguir diminuir o seu alcance.

Importância

E por que, afinal, eu acho que é tão importante fomentar o hábito de ler? E, pra ser mais específica, o de ler literatura (ou qualquer outra coisa que não lemos por obrigação). Bom, porque diferente do que já ouvi por aí, a literatura é bem mais do que “estorinhas”.

Eu sei que a cada vez maior especialização do mundo do trabalho nos impõe o sacrifício da leitura por prazer em favor da leitura vinculada ao aprendizado técnico. Mas se, enquanto sociedade, compreendermos a leitura apenas como utilitária, estaremos deixando de lado outras grandes e fundamentais contribuições suas.

 

Ler é ampliar horizontes. Estou presenciando, atualmente, a minha sobrinha de seis anos dominando a leitura, e é uma experiência fascinante. Tenho certeza que só não é mais fascinante para mim do que é para ela. Também assisti, recentemente, a um grupo de alunos se debruçar sobre um volume de quase 1000 páginas de Stephen King como se fosse o bem mais precioso do mundo (E é. Os livros são). Aquilo aqueceu o meu coração e eu só não comuniquei isso a eles porque naquele momento só consegui dizer “me empresta?”. Mas pretendo comunicar sim.

Ler é autonomia, é criticidade, é expansão. E é também contemplação, livre pensar, é ponto de partida pra filosofia. E as nossas rotinas precisam muito dessas pequenas quebras. Quebras que a literatura, o cinema e a arte, de modo geral, proporcionam muito bem. Do contrário, sem eles, caímos num automatismo empobrecido.

Comparo a leitura – e, claro, os filmes também – à visão de um lugar bonito no meio de um dia corrido. Muitas vezes, em dias que começavam às 4:30h e só terminavam às 21h, eu passava por lugares bonitos e pensava: “se esse dia for especialmente difícil, pelo menos isso aqui já fez ele valer a pena”. Ou nem precisava ser um lugar bonito, podia ser o lugar de sempre, mas no qual eu conseguisse encontrar um ponto em que eu nunca tivesse prestado atenção. Um prédio ou casarão, por exemplo, dos quais eu nunca tivesse visto o topo.

Muitas vezes o caminho para a solução de um problema, para uma mudança de perspectiva, para uma epifania, está em você olhar por outro ângulo. Acho que a literatura nos ajuda muito nisso, dá poesia a um cotidiano tantas vezes sufocado, nos faz parar de olhar só pra frente, sempre preocupados que estamos somente com o destino, somente em chegar e se vamos chegar a tempo, e nos faz olhar pra cima, desviar a visão viciada e, assim, aproveitar o trajeto, ver belezas e novidades nele.

 

Nós já somos massacrados por tantas atividades e compromissos que fazem o tempo passar rápido, que nos afastam da contemplação, fazem a gente dormir em março e quando vemos, já é setembro, então colocar um pouco de fantasia e ficção nesse meio tempo é como que uma resistência. Vamos refletir antes de concluir logo um “não tenho tempo”. Vamos dar espaço à arte.

Deise Luz é colunista do Camaçari Mulher e só queria ver todos os filmes do mundo. Não é crítica e nem estuda cinema. A função que melhor ocupa é a de uma espectadora fiel, dedicada e ansiosa. Para ler mais textos de Deise, clique no nome dela ali em cima 😉

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