Voltar no tempo já não parece tão legal

O cinema tá sempre alimentando em nós esse encanto pelo passado

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Há uns anos, quando o meu falecido blog ainda era vivo, eu escrevi um post dizendo que Woody Allen não me convenceu. Não me convenceu porque à época ele tinha acabado de lançar Meia-noite em Paris, um filme que parece nos dizer que a nostalgia não nos serve de muita coisa.

Eu não me convenci disso porque o passado sempre me pareceu tão melhor, se você me perguntasse qual superpoder eu gostaria de ter eu, com certeza, responderia viajar no tempo. Tanto que uma máquina do tempo é o que eu peço pro meu namorado de aniversário todos os anos (ainda não ganhei).

Nostalgia

O cinema tá sempre alimentando em nós esse encanto pelo passado, seja porque os filmes que víamos na nossa infância nos marcaram, ajudaram a nos formar, seja porque os próprios filmes celebram essa nostalgia do retorno ao passado. De Volta para o Futuro, praticamente, plantou esta ideia em nós. Em Questão de Tempo, um dos meus filmes favoritos, o protagonista Tim viaja no tempo sempre que quer a fim de conquistar a mulher que ama.

Lembro de ter escutado de uma professora na faculdade que sempre que entrevistamos pessoas num trabalho de campo elas tendem a romantizar o passado quando falam dele. E isso é bem verdade. Quem nunca ouviu de alguém mais velho, com muito saudosismo, que “no passado era diferente”? E nem precisa ser mais velho pra isso. Nós mesmos, dessa geração que cresceu entre os anos 1990 e 2000, não estamos aí resgatando tendências de moda daquelas décadas ou tendo pequenos surtos de felicidade a cada retorno de uma boy band ou girl band favorita?

Muitos dos filmes clássicos que me encantam celebram e são o retrato de uma Hollywood antiga, daqueles tempos de grandes estrelas inatingíveis, ainda mais glamourizadas do que as de hoje, dos grandes estúdios e produtores que ditavam as regras. Só que eles ainda ditam.

Desde o início do mês estão vindo a público diversos casos de assédio sexual cometidos por um dos executivos mais famosos de Hollywood, o produtor Harvey Weinstein, um homem que, na história das cerimônias do Oscar, só não foi mais agradecido do que Deus. Inicialmente, treze mulheres acusaram o produtor de condutas como masturbar-se em sua frente, e estupro. Depois, muitas outras apareceram, incluindo atrizes como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, a quem Weinstein fez propostas sexuais.

O motivo do silêncio das vítimas durante tantos anos deveu-se ao medo de serem perseguidas e verem suas carreiras prejudicadas. Executivos que trabalharam com ele reforçaram as acusações, afirmando que não se tratou de um período de tempo isolado, mas de um comportamento contínuo.

E aqui eu volto ao ponto inicial do texto: em Meia-noite em Paris, Woody Allen nos faz crer que o saudosismo é uma coisa meio inútil. No filme, Gil consegue viajar de volta aos anos 1920, período que ele idolatra, mas lá conhece Adriana, para quem esta década não tem graça nenhuma e o bom mesmo seriam os anos 1890. No fim das contas, ele acaba preferindo o presente. Ou seja, o encanto que temos por determinada época pode cair por terra assim que vemos de perto os seus defeitos.

O mesmo aconteceu comigo. Aquelas décadas que idolatro, os anos 1940, 1950, 1960 eram épocas muito difíceis para certas minorias, como as mulheres. O mundo continua sendo difícil para nós? Sem dúvida. Mas está melhor. E a prova disso é que, a cada dia, mais mulheres expõem os assédios que sofreram e os homens que os perpetraram.

No artigo que iniciou toda a exposição jornalística sobre o caso, o repórter Ronan Farrow afirma que:“É como se as mulheres que falaram comigo recentemente sentiram-se encorajadas a falar sobre suas experiências por causa do modo como o mundo está mudando a respeito de problemas relacionados a sexo e poder”.

Quer dizer, as músicas dos anos 1960 são maravilhosas sim, os filmes dos anos 1950 também, mas eu não troco a minha liberdade de expressão – minha e das demais mulheres – por nada. Também não troco as conquistas sociais que nós e outras minorias, como negros e homossexuais, tiveram desde então.

E quanto a Woody Allen? Bom, parece que agora o nostálgico é ele. O cineasta declarou que o escândalo envolvendo Harvey Weinstein “é muito triste para as mulheres e para o produtor”, que teve sua vida arruinada, que “não há ganhadores” e que ele teme que se inicie “uma atmosfera de caça às bruxas, onde um homem não poderá mais piscar para uma mulher em seu escritório”.

Irônico constatar que, se no passado, Woody Allen me fez discordar dele e bater o pé que voltar no tempo seria legal sim, hoje, anos depois, o mesmo Woody Allen me ajude a concluir o oposto. Enquanto ele teme a mudança dos tempos, parecendo querer apegar-se ao passado, se demorar nele um pouco mais (provavelmente para permanecer num tempo em que homens acusados de abuso, como ele próprio, não eram importunados), eu vejo com clareza que o presente é o melhor lugar para se estar.

Ainda bem que vivemos num período onde a “caça às bruxas” é possível mas, dessa vez, as bruxas não são mais as mulheres.

Deise Luz é colunista do Camaçari Mulher e só queria ver todos os filmes do mundo. Não é crítica e nem estuda cinema. A função que melhor ocupa é a de uma espectadora fiel, dedicada e ansiosa. Para ler mais textos de Deise, clique no nome dela ali em cima 😉

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