ComportamentohomePrimeira Pessoa

Cadê o corpão que estava aqui?

Ok, vamos ser sinceras: nunca foi tão corpão assim. Nunca foi nada que se dissesse:”oh! Meu Deus! Que lindo, que maravilhoso, que deuso!” E eu demorei a me acostumar, a gostar dele com todas as suas imperfeições.  Demorei a entender que, embora não visse o meu tipo de corpo contemplado nas revistas femininas, ele era lindo e era meu. Único.

Fico tentando me lembrar quando me dei conta disso, lá atrás, para aprender novamente a lição. Diante deste meu novo corpo, não me reconheço. Não me encontro. E vivo um paradoxo, pois, ao mesmo tempo em que acho uma bobagem se preocupar com essa perfeição, ainda não sou capaz de amar a minha nova carcaça. Talvez, não seja bem a perfeição que eu esteja procurando. Não, não  é isso. Não sinto falta do que nunca tive e acho impossível ter. Sinto falta do meu corpo imperfeito de antes. Aquele que eu conhecia, que eu sabia o que caía e o que não caía bem. Aquele que eu amava.

5906d42b-d905-4be8-b3fc-75659314410cFaz nove meses que eu pari. E só agora, há pouco tempo, me olhei no espelho detalhadamente. Estou mais flácida do que nunca. Meus seios não cabem mais nas minhas mãos. Eles sofreram as transformações maiores. Estavam tão bonitos no pós-parto, mas agora, estão realmente estranhos. Eu gostava do meu umbigo pequeno e agora ele está terrível. Sinto falta até do meu estômago alto, que sempre achei esquisito. Minha barriga, meu Deus! De nada adiantou gastar os tubos com cremes e mais cremes. Elas apareceram: as estrias! Na barriga, nos seios, nas coxas…fiquei tão inchada na última semana da gravidez que não estranharia se as estrias aparecessem no meu nariz, na testa, nos pés. Meu corpo todo está cheio dessas listras. Me sinto riscada. Rabiscada. Sou um rascunho de mim.

f961336f-cfd0-4aab-84b4-ffd4fd33b7bcE ainda tem mais, sabe?! Tem o meu cabelo que caiu e continua caindo. Tem a cicatriz me lembrando que o parto não foi como planejado. Tem a minha cara de cansada. Tem o cansaço. Tem o mundo que, às vezes, parece estar sob as minhas costas. Então, quando me olho no espelho, mesmo sabendo que sou muito mais do que um corpo, mesmo sabendo que posso estar exagerando, não me encontro.

Esse turbilhão de transformações pelo qual venho passando desde a gravidez não é fácil de digerir. Não estou reclamando. Engordaria novamente os 16 quilos, sentiria os enjôos, ficaria inchada, faria meio mundo de exames, ouviria com sorrisos amarelos aqueles tantos conselhos, sentiria aquela dor dilacerante das contrações, faria tudo tudo tudo de novo para ter a sensação de acarinhar, amamentar, amar e proteger o meu filho, receber o carinho, o amor puro e sentir o cheirinho de leite que ele tem, mas, ainda assim, olhar-me no espelho, despir-me de vaidades com as quais ainda não consigo lidar e encarar esta nova mulher que se apresenta, é um desafio.

Mas por quê mesmo estou aqui me desnudando em palavras se poderia marcar uma sessão com o terapeuta ou conversar frivolidades com as amigas e esquecer isso? Porque eu sei que, assim como eu, milhares de mulheres estão passando por esse momento. A maioria de nós não tem uma equipe multidisciplinar à disposição, a maioria não tira foto com 10 dias de parida mostrando a barriga negativa, a maioria de nós está frágil demais para ouvir coisas como “sua barriga fiou meio flácida” “ fulana de tal pariu na mesma época que você e já voltou ao corpo de antes”, “quando é que seu corpo vai voltar ao normal?”.

Comentários como eIMG_20160615_145632sses não nos acrescentam em nada. Pelo contrário: podem roubar-nos a já fragilizada autoestima. Então, vamos ter mais cuidado com o que falamos para quem, recentemente, trouxe mais luz ao mundo.  Com quem está lidando com tantas mudanças, com quem se deu conta que o “corpão” de antes não está mais aqui, nem estará,  por que  nós  também não estamos. A maternidade nos traz mudanças absurdas, nós nascemos junto com nossos filhos. A diferença é que eles vêm com uma roupa nova e nós, somos novas pessoas no mesmo corpo, um corpo que abrigou, geriu, esticou, murchou… um corpo que ainda estamos aprendendo a amar.

cmulhermenor

 

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