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Dilma Mendes: a dona da bola

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O porte atlético e a melanina da pele contribuem para que, nem de longe, Dilma Mendes aparente seus 52 anos de boas histórias. Mas a verdade é que quando as indústrias ainda não haviam chegado, e Camaçari era uma cidade bem pequena, ela já fazia muito sucesso por aqui.

Nascida e criada no município, a atual técnica da Seleção Brasileira de Fut 7 é a caçula de uma família de sete irmãos. Como a diferença entre ela e a irmã mais velha é de 17 anos, foi com os meninos da casa que Dilma se acostumou a brincar. “Morávamos ali perto da estação (atualmente fechada), não havia muita vizinhança, então não tínhamos muita opção: ou eles brincavam de boneca, ou eu brincava de bola. Costumo dizer que essa disputa foi a única que gostei de perder na vida”, brinca.

IMG_2771Dona Hilda nunca aprovou a proximidade da filha com a bola. Para ela, mulher tinha que casar, ter filhos, cuidar do lar e da família. Por isso, além de não estimular Dilma a jogar futebol, também colocava dificuldades, na tentativa de fazê-la desistir. Nos dias de jogos, por exemplo, inventava mil e uma tarefas para a filha fazer: lavar os pratos, limpar a casa, coisas do tipo. Como a menina sempre foi muito ágil, para tentar impedir, ainda dizia que tinha visto um cabelo branco e pedia para a filha, em vão, procurar.

Mas o que dona Hilda não sabia é que Dilma tinha um grande aliado: o pai, seo Henrique. Para ele, ver a caçula jogar era motivo de orgulho e não media esforços para isso. Para ajudar a filha a não desapontar a mãe, criou com ela um código secreto. “Eu tinha hora para chegar em casa e, às vezes, me atrasava. Ele amansava a fera, acalmava o terreno. Quando ele apagava e acendia a luz da sala três vezes, era o sinal de que podia entrar. Então, eu passava correndo para o quarto, que era o mesmo dos meninos. Ia deitar na minha cama cor de rosa e sonhar com mais medalhas para pendurar na parede”, relata.

dilma_camacari_1Quem também incentivou muito Dilma foi o irmão, Luís, que era jogador e deu muitas dicas. O pai até o ajudou a comprar um carro sob a condição de levar a irmã para treinar, o que fazia com muito gosto. “Sem eles, não sei como seria. Não sei se conseguiria”, conta. Uma pena que nenhum dos dois esteja mais aqui para ver o quanto esse incentivo foi importante para que, hoje, Dilma integrasse a comissão técnica da Seleção Brasileira de Fut 7. Luís faleceu em janeiro deste ano, mas apesar de não ter visto essa conquista, acompanhou muitas vitórias. Seo Henrique partiu em 1991, quando a carreira da filha estava deslanchando. Ele viu muitos gols e alguns títulos, mas não viu, por exemplo, a filha se formar e pós-graduar. “Meu pai sempre me dizia para estudar, sabe?! E mais do que isso: dizia para eu ser uma pessoa de bem”, relata.

Esses ensinamentos nunca saíram da vida de Dilma. Tanto que, em todos os clubes pelos quais passou, priorizou as oportunidades que a permitissem concluir os estudos. Sempre envolvida com projetos sociais, ela ensina, gratuitamente, crianças a jogar bola, mas a condição é que estejam na escola. “Antes de torná-los atletas, temos que ensiná-los a ser cidadãos. E temos que começar isso de nós mesmos, sendo exemplo para eles”, conta.

dilma_1_2Quanto a isso, Dilma não precisa se preocupar, pois, por toda a sua trajetória, ela tem sido uma inspiração para meninos e meninas de várias idades, de vários lugares. Ela, que ajudou a revelar o talento de uma das melhores jogadoras de futebol do planeta: Formiga; ela, que driblou muitos adversários, que driblou muitos preconceitos, que dribla, todos os dias, dificuldades como a falta de apoio e patrocínio; ela, que nunca abriu mão dos seus sonhos, é um exemplo para muita gente, pois mesmo tendo que parar de jogar por conta de cinco lesões, não desanimou e dedicou sua vida aos treinamentos, à carreira como técnica e, por todo o seu empenho, está tendo seu trabalho reconhecido nacionalmente, fato que a deixa imensamente feliz.

“É uma alegria sem tamanho, sabe?! Sou do tempo em que era proibido mulher jogar futebol. Sofri muito preconceito. Quando comecei a jogar aqui em Camaçari, era apontada na rua. Diziam: lá vai a ‘moleque macho’, aquela que joga bola. Sofri por não ter condições de comprar os equipamentos necessários para as partidas. A gente lá em casa não passava necessidade, mas não tinha luxo porque eram muitas bocas para alimentar. Então, para eu comprar meu kichute, ralei muito, lavei carro, fiz o que pude, sempre com honestidade. Nunca desisti porque sempre acreditei no esporte, na capacidade que o esporte tem de transformar vidas”

Treinadora de Futsal, de Futebol Society e Fut 7 masculino/feminino, Campeã Brasileira de Futsal, Vice-campeã Brasileira de Futsal Feminino sub-20, Campeã do Torneio Internacional de Futsal Brasil x Austrália, campeã baiana, destaque na imprensa local e nacional. Estas são apenas algumas conquistas que Dilma traz no extenso currículo, todas documentadas para quem quiser ver… Mas a maior de todas as conquistas fica registrada apenas no coração da atleta e nos olhares trocados com dona Hilda que, hoje, aos 95 anos, é a maior fã de Dilma. A mesma Dona Hilda que fazia de tudo para impedir a filha de jogar, derrete-se toda em orgulho ao saber que a filha escreveu seu nome na história do Futebol Brasileiro como uma das melhores treinadoras que esse país já teve. Orgulho este, compartilhado pelos moradores de Camaçari, que quando a vêem passar na rua, apontam dizendo: lá vai Dilma Mendes, a dona da bola.

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