Elas por Ele

Coluna Elas por ele: Abaixo as generalizações!

14 de agosto de 1997, 18h. Tenho 9 anos de idade e estou deitado, olhando para o teto por entre os minúsculos orifícios de um mosquiteiro verde. O quarto recebe a pouca luz que vem da sala e penetra timidamente pela porta semiaberta, portanto, quase não dá para distinguir entre ripas, caibros e telhas de barro. Mesmo assim, olho para o alto como se contemplasse um céu salpicado de estrelas cintilantes.

Fiz questão de ir dormir mais cedo, pois estava ansioso por ficar em paz para reviver mentalmente o feliz momento de sete horas atrás. Neste intervalo, tive a impressão de ter vivido as experiências mais fantásticas de todo o pedaço de vida usufruído até ali. Naquela tarde, brinquei com a espuma do shampoo, desenhando corações com iniciais nos azulejos do banheiro. Até o sabor das torradas era totalmente novo, a superfície mais crocante, o interior mais macio, a manteiga mais saborosa.

Demorou mais da metade do ano letivo, mas ela finalmente me presenteou com alguns instantes de atenção. Falamos dos exercícios de matemática, do quanto os mais bagunceiros da classe atrapalhavam e ao mesmo tempo faziam rir, da rifa que sortearia um urso de pelúcia dali a duas semanas… Caminhamos lentamente, mas o local onde o percurso para nossas casas se bifurcava chegou rápido como um trovão após um raio. Desde então, senti vontade de deitar, olhar para o teto, e re-experimentar aquelas boas sensações. Que bom que o fiz, pois só sobreviveram até a manhã seguinte.

Aquela não foi a primeira vez que me vi apaixonado e certamente não foi a última. Já perdi a conta de quantas cartinhas preenchi com floreios inspirados em canções. Algumas entreguei, para outras solicitei mediadores, e houve ainda aquelas que nunca chegaram ao destino, condenadas a rodopiar inutilmente na espiral do silêncio. Cada uma dessas paixões – as passageiras, as duradouras, as moderadas, as intensas, as correspondidas, as não-correspondidas, as reveladas, as mantidas em segredo – é uma prova incontestável da existência da faceta que muitas mulheres, diante de suas eventuais desilusões, insistem em desprezar: os sentimentos dos homens.

O romantismo não é um anelo exclusivamente feminino, da mesma forma que o termo “insensibilidade” não define a alma de todos os homens. Mulheres, mesmo as que têm apenas 9 anos de idade, também podem causar muitos estragos em um coração cheio de fantasias inocentes. Homens, mesmos os mais rudes e avessos a demonstrações de afeto, podem carregar no peito o mais puro sentimento de querer bem. Neste mundo, também há mulheres cruéis e homens fiéis!

Nesta postagem inaugural, eis meu protesto original: abaixo as generalizações!

Comentário da esposa do autor:

Se você tivesse me esperado, teria sido poupado desses sofrimentos precoces! 🙂

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