Elas por Ele

Elas por Ele: Ações e Intenções

Talvez fosse a primeira vez que eu experimentava aquela indiferença diante do perigo. Eu, um garoto frequentemente citado como referência de bom comportamento, agora carregava um sorriso maquiavélico no rosto e uma pedra na mão. Joguei com força, a pedra voou em direção ao céu e aterrissou com estardalhaço no telhado do vizinho. Lembro muito bem daquela voz exaltada, ficando mais alta ao passo que se dirigia para o lado de fora. Atingiu o ápice da estridência quando parou diante da soleira da porta da minha casa. A essa altura, eu já estava escondido debaixo da cama, experimentando o outro extremo dos sentimentos (medo e arrependimento) enquanto ouvia o vizinho comunicar o prejuízo para minha mãe: duas telhas e um grande susto.

Que atire a primeira pedra (metaforicamente) quem nunca agiu sem pensar nas consequências e sentiu vontade de voltar no tempo para fazer tudo diferente. Homens fazem isso o tempo todo – atos por impulso, ações não/mal calculadas, atitudes desprovidas de lógica ou bom senso – e o resultado é, invariavelmente, desastroso. Pior é que, pra variar, de vez em quando planejamos, mas mesmo motivados pela intenção de agradá-las, decepcionamos em muitas de nossas missões. Não temos a assertiva intuição feminina, por isso erramos com mais frequência e, consequentemente, carecemos da compreensão e do perdão de vocês, mulheres, com maior regularidade.

Conclusão: se olharem com muita atenção, muita atenção mesmo, existe a possibilidade de conseguirem notar, na essência das nossas atitudes desajeitadas, vestígios das boas intenções que possivelmente a motivaram. Mas não nos peçam auxílio para isso, pois nossa memória limitada e desatenção característica não colaboram para que captemos e registremos subjetividades tão sutis. Talvez eu tenha iniciado esse texto com um exemplo ruim, pois não consigo lembrar qual boa intenção me motivou a jogar uma pedra no telhado do vizinho. A julgar pela reação da minha mãe, acredito que não ficou muito clara pra ela também. Mas enfim, tenho esperanças de que um olhar mais compreensivo sobre nossos atos falhos possa minimizar prejuízos emocionais em outras situações.

Comentário da esposa do autor:

Intuição feminina assertiva teve a minha sogra, que ensinou o meu marido a nunca mais jogar pedras em telhado

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