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Eu (nós) e os medos

Quando eu era mais nova estava convencida de que existiam três coisas que eu jamais conseguiria aprender: nadar, assoviar e tocar violão. Muito tempo depois, em 2016, eis que eu estava de boa na lagoa (sério, era uma lagoa) e simplesmente boiei. Assim mesmo, do nada, tipo mágica. Hoje eu acho que já posso dizer que sei nadar. Nado mal pra caramba, mas acho que já posso dizer sim. Assoviar e tocar violão eu continuo sem saber.

E assim o “eu sei nadar” virou o meu mantra. Sempre que estou prestes a fazer algo que nunca fiz, que me assusta, que acho muito difícil ou que estou a caminho de internalizar que não é pra mim, eu penso “eu sei nadar”. Se eu aprendi a nadar eu posso muitas coisas.

Acho curioso que quando eu era adolescente os medos quase inexistiam. Aquele clichê do adolescente destemido que acha que está isento dos perigos é bem real. Depois que envelhecemos vemos que os perigos abundam, que o que não faltam são perigos, que tá tendo perigo pra caramba. Mas diante disso é preciso encontrar um equilíbrio entre o medo que nos torna prudentes (e que nesse sentido é importante) e o medo que nos paralisa (e que nesse sentido é aprisionador e distorce a nossa percepção da realidade).

Em meio ao Setembro Amarelo, tenho prestado atenção em discursos que condenam os medos, não na perspectiva de que eles precisam ser combatidos na medida em que nos limitam, mas a partir do entendimento de que são sinais de fraquezas. Ouvi recentemente que “os jovens de hoje são frágeis”, que se deixam abater por qualquer coisa, tipo mortes (sim, mortes. APENAS o maior mistério e temor da condição humana, foi esse o exemplo que a pessoa, como quem fala de baratas, deu). Ouvi também alguém falar que “psicólogo não ganha o meu dinheiro”, pois “não sei o que são medos”. Eu entendo serem pessoas de gerações diferentes, que cresceram numa sociedade na qual falar de saúde mental não fazia sentido. Mas nós precisamos desconstruir isso. Eu duvido muito que aqueles que alegam ter passado incólumes pelas dores da vida não guardem dentro de si feridas muito abertas, que poderiam encontrar conforto em sessões de terapia.

Não precisamos negar os nossos medos, não é errado sentir medo, não é errado precisar do outro, não é errado precisar de acolhimento. E quanto mais nos acolhermos e prestarmos atenção nos outros, melhor. Eu tenho uma colega de trabalho que abraça a todos que encontra durante o dia, todos os dias, e que pergunta sinceramente se estamos bem. Não é uma pergunta desinteressada, só por convenção social, ela de fato quer saber a resposta. De início, até me assustei pelo inusitado desta atitude. Mas me dou conta, cada vez mais, do quanto precisamos ser como ela. Com atenção, com olhar sensível conseguimos transformar a vida do outro e também a nossa.

Não nego a possibilidade de ter medos, não seria saudável, mas ao mesmo tempo procuro me manter firme contra a ameaça de novos. Adotei uma política “antimedos”. Eu já tenho medo de avião, de doença e de dois caras numa moto. Já tenho medos demais, estou rejeitando novos. A cota está preenchida. Dia desses comecei a ler sobre como banhos de rios e cachoeiras são perigosos: cobras, correnteza, tromba d’água. Por alguns segundos senti o mecanismo do medo se remexendo dentro de mim e me senti tentada a aderir a esta nova modalidade de medo. Mas aí me controlei. Rios e cachoeiras são meus banhos favoritos (especialmente na Chapada Diamantina), e mais essa experiência o medo não vai levar de mim.

Há medos, no entanto, difíceis de ignorar, especialmente quando não são individuais, mas coletivos, e ameaçam as vidas de tantas pessoas. O meu maior medo, presentemente, tem sido o de ver o país adentrar o momento mais sombrio de sua história desde a ditadura militar, guiado por alguém que é mais assustador do que os vilões dos filmes de terror de que tanto gosto. Uma presença tão nefasta, maléfica e odiosa quanto a destes. Medos coletivos exigem soluções coletivas, mas já que não podemos frequentar juntos uma sessão de terapia, não deixemos que este medo seja do tipo que nos aprisiona e paralisa. Que seja o tipo de medo que nos torna prudentes e vigilantes, mas que também nos mobilize a passar adiante a mensagem de que ELE, o medo, NÃO vai levar de nós o projeto de um país melhor.

 

 

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