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Fiquei desempregada, e agora???

O termo “mulher foi feita pra casar e cuidar dos filhos e da casa” está, praticamente, extinto (isso mesmo, praticamente, pois – pasmem!!!- anda há quem pense assim, mas isso a gente discute um outro dia). São anos e anos de muita luta e suor para conseguirmos conquistar nosso lugar ao sol. E a gente já tá bem acostumada a ter nosso dinheirinho pra pagar a fatura nossa de cada dia do cartão de crédito, comprar aquele batom divo da Eudora, os produtinhos da Mary Key ou Hinode, sair com as amigas pra tomar um chopp, estourar o cartão da Renner e da Riachuelo, bater o ponto no salão todo sábado (pé, mão, cabelo e bigode, por favor!!!) e, claro, ajudar nas contas de casa, ou mesmo, ser a responsável por TODAS as contas da casa (escola de filho, gás, água, luz, telefone, comida, diarista, etc, etc, etc…) E, pra conseguir arcar com essas coisinhas básicas para a nossa sobrevivência, a gente precisa de quê Brasil???? De trabalho, né minha gente?! Afinal de contas, money não dá em árvore e mesmo para quem tem um maridão (ou mulherão), ou os pais pra ajudar, não ter seu próprio dinheiro é complicado (complicadíssimo!).

Mas o problema é que não tá fácil pra ninguém. Cresce, a cada dia, o número de desempregados no Brasil. Eu mesma, passei a integrar o grupo das pessoas “disponíveis para o mercado de trabalho” e, confesso, não é mole não. Após dez anos trabalhando em uma instituição onde cresci profissional e pessoalmente, onde pude construir uma relação de muito amor, gratidão, admiração e comprometimento, estou tendo agora que lidar com uma nova realidade, dura, complicada e cruel, afinal, ficar desempregada já é “uó” e ficar desempregada justamente quando o Brasil enfrenta uma grave crise econômica pode ser desesperador.

O importante é não deixar a peteca cair e tentar encarar esse momento como uma oportunidade de se reinventar, de se redescobrir (e até reaprender a fazer um currículo!!!) e não desistir, uma hora ou outra, novas oportunidades surgirão. Por isso, o Camaçari Mulher bateu um papo com a Gestora de RH, Angela Miosso, que nos deixou valiosas orientações sobre o que deve ser feito para se inserir novamente no mercado de trabalho.

CM: Angela, você é Gestora de RH, professora universitária, mãe, esposa, dentre outra coisas e também ficou desempregada recentemente. Como mulher, sabe exatamente como fica a nossa cabeça numa situação como essa. O que fazer pra não pirar???

Angela Miosso

AM: Buscar o equilíbrio e a calma é a primeira coisa a fazer, para não se estressar e nem deixar quem está próximo estressado, até porque o nervosismo e o desgaste emocional não trarão “dinheiro para o bolso”. Parece até óbvio, mas muita gente “surta” e acaba não enxergando que as dificuldades podem vir, muitas vezes, para redirecionarmos nossas vidas, mudarmos um pouco o foco do nosso destino. A dificuldade deve ser encarada “como um tropeço”, não só para testar nosso equilíbrio, mas sim para nos jogar para frente! E, ao invés de obter lucro, podemos ser acometidos por doenças psicológicas e físicas, e remédios custam caro!!! Nada disso! É necessário gastar energia com aquilo que lhe dá paz e serenidade, mantendo positividade e engajamento na busca de novas formas de trabalhar, obter o sustento, e nunca achar que o mundo acabou porque perdemos o emprego. Qualquer atividade e habilidade lícita a curto prazo, é um caminho. Habilidades manuais, como na área culinária ou artesanal, podem e têm dado um retorno muito grande àqueles que buscam e se dedicam de modo a aprimorar para ganhar dinheiro. Já aqueles que têm habilidades de escrita e leitura, por que não ser consultor, dar aulas particulares, lecionar em escolas? Enfim, é necessário refletir e ver oportunidades nas coisas mais simples e acessíveis. O desespero, muitas vezes, não deixa enxergar o que pode ser óbvio.

CM: Quando a gente passa um longo período em um único emprego acaba “estacionando” numa zona de conforto. Qual o caminho para se reinserir e se reencontrar no mercado de trabalho?

AM: Existem vários caminhos, mas acredito que o mais prudente neste momento, além de se lançar em sites de empregos, cadastros online e presenciais é, também, estar antenado ao que é novo e atual em sua área para buscar se atualizar também. Mesmo que as condições financeiras não possibilitem fazer novos cursos, novos aprimoramentos, não há porque não buscar cursos gratuitos em grandes e renomadas organizações também do mundo virtual. As livrarias dos shoppings propiciam maior conhecimento daquilo que, a princípio, só se sabe o nome e nada mais. Muitas livrarias já deixam mesas e cadeiras para que as pessoas possam ler lá mesmo… Por que não?? Uma vez especializado e, principalmente, ATUALIZADO, as chances de conseguir novas oportunidades na mesma área são maiores.

CM: Como fazer para se destacar? Quais os principais diferenciais esperados pelas empresas?

AM: Infelizmente, muitas empresas estão desligando um grande número de profissionais e, quando extremamente necessário, buscam contratar novos que possam fazer mais de uma função que antes eram executadas por dois, três. Isso é o que se tem percebido na maioria das vagas hoje disponíveis no mercado. Ou seja, as funções estão sendo praticamente multifunções e os profissionais tendo que se tornar, cada vez mais, “generalistas” – detendo o conhecimento e habilidade sobre mais áreas, seja diretamente da sua formação ou não. Somado a isso, o lado comportamental irá contar muito. Há que se demonstrar vontade de aprender e estar aberto às novas atividades, não com o sentimento intrínseco resistente de que “está sendo explorado” ao desenvolver multitarefas, mas sim, que está tendo a oportunidade de aprender novas habilidades que agreguem valor ao bom profissional que está pretendendo ser.

CM: O que não pode faltar num bom currículo?

AM: Muitas empresas de recolocação profissional têm estado atentas e feito bastante uso do Minicurrículo.

– Simplicidade: nos dados pessoais do profissional, colocados no cabeçalho do currículo, devem constar apenas o nome completo, endereço, telefone de contato e formação profissional.
– Objetividade: é importante que se tenha um breve texto mostrando a vida profissional, formação e objetivos a serem alcançados. Não deve ultrapassar mais que 4 linhas para não ser prolixo em algo que deve ser conciso e de rápida visualização.
– Clareza: outras informações importantes a serem apresentadas no currículo, são os resultados alcançados em cada função/cargo ocupado durante a carreira profissional, pois demonstra como você agregou valor naquela empresa que trabalhou. Quem não tem muita experiência, deve destacar os cursos realizados, atividades voluntárias e habilidades diferenciadas que podem vir a valorizar a sua candidatura.

CM: E o que não se deve colocar?

AM: Por questão de segurança, não se deve colocar números de documentos (CPF, Identidade, etc…), pois há casos de uso inadequado desses dados. Não se deve mentir, nem no currículo e nem na entrevista. Às vezes uma mentira pode colocar em risco toda a bagagem profissional conquistada. Não se deve, também, colocar pretensão salarial, a não ser que seja solicitado pelo recrutador. E o currículo não deve ser extenso demais, como um livro narrativo da vida do profissional em cada cargo ocupado, mas um documento que contenha o mínimo necessário do seu histórico profissional.

CM: O mercado, para a mulher, continua sendo uma espécie de loteria onde poucas são aquelas que possuem cargos e salários compatíveis com os masculinos. O que você pensa a respeito?

AM: Culturalmente o nosso mundo é muito machista, infelizmente. E isto favorece para que continuemos a ser sempre subjugadas, ou sermos direcionadas a cuidar do lar e da família enquanto os homens ainda têm a função de “provedores”. Está, inconscientemente, intrínseco na mente do ser humano, inclusive de muitas mulheres. E essa situação só irá melhorar quando a criação de nossas crianças for cada vez menos diferenciada, onde tudo seja feito e executado, sem sexismo. Um exemplo claro disso são os brinquedos das crianças. Meninas: bonecas, bebês para dar de mamar, comidinha, panelinhas, geladeiras, máquinas de lavar, fogõezinhos; já para os meninos: carrinhos, naves, espadas futuristas, brinquedos tecnológicos… Algo está errado aí, não? E essa condição recorrente dificulta futuras conquistas igualitárias entre homens e mulheres nas áreas sociais, profissionais, salariais e assim por diante. Para que haja mudança é necessário que lutemos para conseguir criar e educar de modo diferente as nossas crianças.

CM: Você mesma já passou por grandes empresas como o Jornal A Tarde, a FIEB, a Cidade do Saber e, além disso tudo, é professora, mãe, filha, esposa… Uma verdadeira inspiração para nossas leitoras. Deixe alguns conselhos para que a gente se inspire ainda mais a não deixar a peteca cair diante das dificuldades enfrentadas ao ficarmos fora do mercado.

AM: Reforço a necessidade de manter a calma e serenidade para que nesta fase a razão se sobreponha à emoção. O desespero e a instabilidade emocional só remetem ao desequilíbrio físico e fisiológico. Procure relaxar, meditar… Às que acreditam em um ser superior, orar. Todas estas ações manterão e trarão a condição de paz e tranquilidade para buscar com razão novas soluções e oportunidades. Além disso, desenvolver habilidades que deem satisfação e sejam passíveis de retorno financeiro, pode ser também um bom caminho. Afinal, todo trabalho honesto é nobre, seja ele o mais simples ou o mais rebuscado. O importante mesmo é que tudo que for proposto a fazer seja feito da melhor forma possível para merecer reconhecimento, ser visto e divulgado. Esse é o começo de tudo! Investir em si mesmo: seja em cursos, em tempo de leitura para aprimoramento técnico ou mesmo em uma caminhada para manter o físico em atividade. É importante, também, cuidar do físico, do “externo”, de modo que a aparência seja apenas uma chave para o acesso a tudo que se tem de nobre “internamente”, como a inteligência, a serenidade, a dedicação, a humildade e a força de vontade para sempre aprender, surpreender positivamente e então, vencer! Afinal, somos mulheres, mães, filhas, esposas! Desistir? jamais!

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