Fala, mulherada!Precisamos falar

O meu peso não é da sua conta

“Não é problema seu!”. Era o que todo mundo deveria responder quando questionado sobre o próprio peso. Aqui não é nenhuma apologia à gordura, ao excesso de peso, ou a falta dele. É realmente incrível como as pessoas se preocupam com o peso alheio. Se está magra, está doente. Se engordou, é desleixada. E nesse planeta de gordos, magros e “enxutos” quase todo mundo acha que tem o direito de opinar sobre o peso do outro.

Quem nunca ouviu: “Nossa, como você engordou!”, “Você tá gordo, hein?”, “O que aconteceu que você emagreceu tanto?” ou a mais clássica de todas: “Você tem um rosto tão lindo, por que não emagrece?”. Pois é, se você já recebeu esse tipo de comentário, sabe muito bem do que eu estou falando.

E na vida de toda pessoa “fora do padrão”, acontece uma sabatina inconsciente do quanto você pesa. É uma curiosidade eterna de amigos, inimigos, familiares e até desconhecidos. Ninguém sai por aí perguntando quantas vezes você transa por semana, então porque questionar o peso? É uma informação tão pessoal e irrelevante para quem pergunta, que este é um tipo de questionamento que deveria ser feito estrita e exclusivamente por médicos.

Agora se você já teve a infelicidade e indelicadeza de fazer qualquer tipo de comentário sobre o peso de uma pessoa, por favor, NÃO O FAÇA NOVAMENTE. Além de mal educado e deselegante, seu comentário é ofensivo e pode despertar sentimentos horríveis quanto à autoestima, depressão, sensação de derrota, culpa, compulsão e até a negação da própria imagem.

Nem todo gordo é doente, assim como nem todo magro é saudável. Ser gordo não quer dizer que a pessoa é preguiçosa, desleixada ou feia. Assim como ser muito magro não quer dizer que a pessoa passe fome ou que seja anoréxica. É tanta informação sobre dietas, matérias sobre como perder peso, as redes sociais promovendo a galera fitness, que se tornou comum as pessoas serem questionadas diariamente sobre seu peso.

O risco desse comportamento invasivo da sociedade em geral, faz com que as pessoas cometam loucuras para atingir o “peso ideal” colocando em risco a própria saúde. Tais desequilíbrios podem evoluir para síndromes bem conhecidas como bulimia e anorexia. E nem vou citar a prática da cirurgia bariátrica (que para mim é um crime) ou o uso descontrolado de inibidores de apetite, anabolizantes e estimulantes.

Não “banque a Poliana” afirmando que o comentário é sem maldade, que quer ajudar ou que se preocupa com sua saúde. É curiosidade embalada de preconceito. Atrapalha e mexe diretamente com o emocional de quem é questionado. Há quem se aceite de verdade, ligue o “foda-se” e vive feliz sem obedecer os padrões de estabelecidos, mas isso é uma pequena minoria. Então, na maioria das vezes as pessoas vão receber seu comentário de forma negativa e depreciativa. E se ainda assim você tem a ideia equivocada de que seu comentário é inofensivo, certamente você faz parte do time das pessoas que associam “aparência” ao caráter e julgam as pessoas pela forma física que elas se apresentam.

Estar fora dos padrões envolve outras questões de preconceitos, como por exemplo aquela vendedora que não quer te atender na loja. Não porque você está fora do padrão, mas porque ela tem vergonha de dizer que na loja não há nada do seu tamanho. No restaurante todo mundo olha para o tamanho seu prato. Na balada você é invisível e indesejável sexualmente. E para quem está acima do peso, ainda precisa se adaptar diariamente aos espaços que não são feitos para gordos: poltronas de avião, cadeiras de praças de alimentação, catracas de ônibus e até os elevadores se tornam a “caixa da morte” quando um gordo entra. Não adianta ser bem sucedido, saber o porquê de existir ou ter equilíbrio emocional. O gordo tem que conviver com apelidos desagradáveis e com as piadas inadequadas. Gordofobia existe e será um tema tratado a parte, outro dia, em outro texto.

Tenho uma amiga que certa vez afirmou que ouvir “Como você está magra!”, é melhor do que um verdadeiro “Eu te amo”. Em que ponto nós chegamos? Desde quando o nosso peso na perspectiva alheia é mais importante que qualquer demonstração de carinho? Isso realmente me preocupa muito, porque os valores se perdem no meio de uma era onde as redes sociais mentem e manipulam, as fotos retocadas destoam da realidade e quase mais ninguém tem uma vida real.

As pessoas não sabem quais foram as escolhas, os percalços e o caminho até chegarem onde chegaram. Se há alguma relação emocional com o físico ou se é puro relaxamento e prazer ou aversão de comer. Se o excesso ou a falta de peso é uma questão física, se há alguma doença relacionada, ou se é questão psicológica, onde qualquer sentimento seja de frustração ou de alegria é descontado na comida. Mais uma vez, o peso das pessoas não é problema seu, então não julgue, não comente e não insista. A única pessoa que pode saber seu histórico é seu médico e/ou nutricionista, se assim você permitir. O maior bem que você pode fazer para uma pessoa que não está no seu peso “ideal” é cuidar da sua própria vida. Vá ser feliz e deixe os outros em paz.

Vamos evoluir como seres humanos e sempre nos colocar no lugar do outro, principalmente na hora de fazer qualquer tipo de comentário. E não digo só sobre o peso, comentário sobre a roupa, sobre o cabelo, sobre filhos, sobre o trabalho, sobre dinheiro… Ninguém sabe o que se passa na cabeça das pessoas e seu “inocente comentário” pode provocar uma avalanche de sentimentos e frustrações no outro inimaginável. Antes de sair falando qualquer coisa, se pergunte se você gostaria de responder aquela pergunta.

“Ahhh, mas eu fiquei curioso e não me segurei”. Vamos ser curiosos para encontrar formas de ajudar o outro, de procurar práticas que elevem o espírito, de disseminar o amor, a bondade, o otimismo e a pureza dos sentimentos. Vamos ser curiosos para saber como várias instituições conseguem fazer milagres com o pouco dinheiro que recebem e porque precisam tanto de voluntários. Vamos ser curiosos na hora de oferecer ajuda a aquele velhinho que está tentando atravessar a rua sozinho. Vamos ser curioso se ajudar o vizinho doente lavando a louça dele ou varrendo a calçada. Vamos ser curiosos oferecendo carona para aquele colega de trabalho. Existem tantas formas nobres de ser curioso, que saber o peso de alguém é tão ínfimo, irrelevante e desapropriado.

O respeito deveria permear toda e qualquer relação. Jamais coloque seu interesse ou curiosidade acima de qualquer coisa ou de alguém. O número do manequim de alguém não lhe dá o direito de ser desagradável. Já é muito difícil conviver numa sociedade que exclui, julga, cobra e ofende quem não é padrão. Seja empático. Por isso não se esqueça de internalizar e exercitar diariamente a frase: “O peso das pessoas não é problema meu”! e faça disso um mantra para a sua vida.

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