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Tricotando com a doula Maria Elaine Valadão

O nome dela é Maria Elaine Valadão dos Santos. Em Recife, onde cresceu, a chamam de “Éláine”. Em Camaçari, cidade para a qual se mudou a trabalho, ela é “Elâine”, ou “Lâne”. De que forma ela prefere ser chamada? Daquela que seja intensa e verdadeira, que toque seu coração, que a faça transbordar. Justamente por isso, há alguns anos, ao ouvir um chamado especial, não hesitou. Sem pestanejar, a engenheira química, com MBA em Gestão de Produção e uma carreira promissora, abraçou uma nova e revolucionária missão: a doulagem. E foi para falar sobre isso e outras questões do universo materno que o Camaçari Mulher tricotou com ela. Repare:

 

Então, nos conte: como foi que a engenheira Elaine Valadão tornou-se doula?

Ah… essa é fácil de responder: pelo destino e pelo chamado da minha alma! Tudo começou através de minha primeira gestação e de um processo de autoconhecimento e reconexão com a natureza. Não queria parir, pensei logo na cesárea como primeira opção de parto. Daí conversei com uma amiga, também praticante do Xamanismo (filosofia de vida que trabalha a cura e crescimento pessoal com inspiração na natureza), ela é doula e me falou sobre o parto natural. Como mora em Recife, me orientou a buscar uma doula por aqui, então achei a minha e me encantei com a transformação, com o empoderamento, com a reconexão que vivi com meu feminino e com o respeito à vida que chega. Senti o chamado para compor essa rede, e me formei como doula em São Paulo, com minha mentora Gisele Leal, em 2014.

Você ainda se lembra do primeiro parto que acompanhou como doula? Consegue descrever como se sentiu? Deve ser uma emoção e tanto!

Olha, eu me lembro de cada parto (risos)! São 28 no total, e tem mais vindo por aí. São histórias fortes. Esse primeiro parto foi hospitalar, como voluntária, de uma mulher (hoje uma grande amiga) que já tinha parido. O parto foi tranquilo até o momento que a equipe técnica começou a interferir no andamento natural das coisas, nas escolhas que a mulher tinha feito. Foi um choque de realidade, pois meu parto foi uma experiência relativamente positiva, e naquele instante me deparei, de fato, com a realidade obstétrica brasileira: a violência, o desrespeito, a intervenção. Prometi a mim mesma me tornar, além de doula, militante, e buscar, junto com a mulher, as melhores opções possíveis para um parto respeitoso.

Por falar em parto respeitoso, tem gente que acha que o parto natural é um retrocesso. O que você pensa sobre isso?

Eu acho que a gente tem direito de achar o que quiser (risos), mas eu sou, além de doula, uma pessoa que gosta de números, de ciência, de pesquisa. Gosto de estatística, e contra dados não há argumentos: o parto natural, para gestações de baixo risco, é a forma mais segura para a mulher e para a criança de parir/nascer. É o caminho percorrido por milhares de gerações até que eu e você estivéssemos aqui, lendo o Camaçari Mulher (♥) e hoje somos bilhões. Deve ter algum sentido dizer que é mais seguro, né?!
Cada uma escolhe o que lhe é mais confortável e compatível com sua história de vida, e não devemos julgar ninguém, mas todas precisam ser devidamente informadas para tomar a decisão de forma consciente e sem paradigmas.

Foto: Fernanda Maia

O que de fato precisa ser esclarecido é a forma como o parto natural é apresentado para as mulheres. Dor e sofrimento são duas coisas totalmente diferentes, e as experiências negativas de parto, geralmente, estão muito mais ligadas à forma como o parto foi conduzido do que, exatamente, à dor que a mulher sentiu.

Infelizmente muitas grávidas ainda desconhecem seus direitos na hora de parir e acabam sofrendo violência obstétrica…

Por isso que temos que nos munir de informação. Fornecer a informação real, sem citar casos da irmã da prima de fulana e, sim, evidências científicas! Precisamos acolher as dúvidas das mulheres, fazer consultas onde a mulher fale mais que o obstetra e se sinta acolhida para perguntar o que quiser. Muitas vezes, a violência obstétrica começa no consultório, quando a mulher acha que quem vai fazer o parto é o médico, e não ela, e simplesmente escolhe calar e acatar tudo o que o médico definiu pro seu destino e o do bebê.

Estamos pertinho do Dia das Mães, está chovendo propaganda sobre isso, e já reparou como muitas empresas ainda mostram apenas o lado “bonitinho” da maternidade? Como você enxerga essa romantização toda? Até que ponto isso atrapalha a maternagem?

Vixe (risos)! Acho uma puta sacanagem o que fazem com a gente, mães. Nós somos doutrinadas a sermos quem devemos ser desde a infância. Devemos ser anjos de candura, mulheres belas, recatadas e do lar, que tudo acolhem e pouco reclamam, extremamente prendadas e que reconhecem o que o bebê precisa no primeiro choro na maternidade. ISSO NÃO EXISTE! A gente aprende tudo na vida, inclusive a ser mãe, SE deixarem a mãe segura e tranquila para ouvir seu instinto, encorajando a cuidar de si e do seu filho, desde o momento que ele nasce, sem julgamentos, mas, ao invés disso, somos julgadas quando não nos sentimos felizes ou seguras em alguns momentos da vida de mãe, e isso somatiza e se torna os mais diversos distúrbios (problemas de amamentação, depressão, síndrome do pânico, etc.). Vejo todos os dias isso acontecer, infelizmente.

Vamos falar de uma coisa linda: você está grávida pela segunda vez! O que está achando da experiência? Existe muita diferença entre a Elaine que foi mamãe de primeira viagem e a Elaine de agora?

Quem era a Elaine que engravidou a primeira vez? Não lembro (risos)! Mentira, lembro sim, mas pouco restou porque o processo foi bruto nesses quase 6 anos de maternidade e quase 3 de doulagem. Hoje estou mais tranquila. Afinal, se deu certo uma vez, porque não vai dar de novo?! Me sinto mais em paz com meu feminino, meus ciclos e marés. Já acompanhei tantas gestações incríveis, e em sua maior parte foram todas tranquilas, que eu percebi que a Mãe Natureza sempre acerta, mesmo quando em algum caso a gente precisa da tecnologia pra dar uma força.

Apesar dos pesares, a maternidade é fantástica, né?! O que você acha mais incrível nesse universo?

Se reconhecer geratriz, ser que nutre, que cuida, que cura com um beijo. Ser o universo de alguém, se descobrir mais forte do que imaginava. Sair do seu lugar de conforto, ver a vida sob uma nova perspectiva, desconstruir suas verdades absolutas. Brigar por amor, mudar a realidade ao seu redor pra tornar ele melhor pra quem chega. Ver uma vida começar e prosperar a cada dente que nasce, a cada palavrinha que aprende, a cada passo que dá, a cada teoria que constrói em sua mente frenética. Ah, é foda essa rotina, mas eu amo ser mãe, e mesmo que às vezes eu queira sumir para sempre, o pra sempre dura no máximo 24h (risos).

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