Destaque

Tricotando com Fernanda Maia

Ela fala pelos cotovelos, tem riso fácil, é cheia de trejeitos e não lhe falta talento. O olhar questionador e sensível é fundamental para que, através da fotografia, Fernanda Maia revele ao mundo que viver tem que ser inquietante, tem que ser transformador. Em seu trabalho, ela abre espaço, sobretudo, para quem, desde o nascimento, percebe que pela cor da sua pele vai ter que brigar mais pelo seu lugar no mundo, para não virar estatística da violência, do racismo, do medo. Aos 28 anos, Fernanda é uma menina mulher contagiante, dessas que a gente quer trazer pra perto, tomar um café, dar muita risada e trocar boas ideias. Do tipo que você fica conversando e nem vê a hora passar do tanto que a companhia é incrível…

Quando foi que começou esse relacionamento sério com a fotografia?

Ah… não teve um start… foi algo bem natural, aconteceu aos poucos. Desde novinha que as câmeras me atraem. Quando eu era criança, fazia meus cachorros de modelos, tadinhos (risos)… lá pelos meus 14 anos ganhei uma câmera, e toda viagem de família eu registrava as fotos da galera e também de paisagens. O pessoal até elogiava, mas eu nunca nem imaginei que esta seria minha profissão, tanto que na faculdade de publicidade – na qual sou formada – eu tinha até medo de mexer nas câmeras profissionais. Rolou uma identificação mesmo em 2010, quando eu fui fotografar minha tia Luiza Maia, que na época era candidata a deputada estadual, durante a campanha eleitoral. Comecei a “futucar” a câmera profissional, me apaixonei e tô futucando até hoje (risos). Profissionalmente, mesmo, eu comecei a fotografar tem uns cinco anos. Ainda estou “engatinhando” nessa área, tenho muito que aprender, mas é um relacionamento super apaixonado!

Você faz fotografias comerciais, mas também tem uma “pegada” artística, tem um discurso, não é a foto apenas para ter uma renda…

Eu trabalho com fotos comerciais, é assim que eu vivo, pago minhas contas, invisto em meus sonhos. E gosto disso! Venho trabalhar alegre e satisfeita; dentro do “padrão comercial” eu vou dando meus “pitacos”, vou tentando deixar a coisa menos engessada. E isso me faz feliz. Gosto de ver uma foto minha em alguma campanha publicitária ou no cartaz de um artista e me orgulhar do meu trabalho. Mas quando tenho a oportunidade de fazer algo mais livre, me jogo! Adoro! Gosto de todos os lados do meu trabalho. Eu acho que na minha vida foi um divisor de águas para viver de algo que não é garantido, que muitas pessoas ainda não valorizam, que você tem que estar se virando o tempo todo, mas no fim das contas, você é quem tem que acreditar e buscar o caminho pra viver daquilo que te faz bem. Coloco minha alma nisso porque eu sei que vale a pena.

A exposição “30 de nós”, que ficou em cartaz no ano passado no Shopping Boulevard, foi de uma força e de uma sensibilidade enormes. Fala mais sobre esse projeto! Vai rolar de novo?

Então! Em novembro a gente tem o Dia da Consciência Negra e eu queria fazer algo que celebrasse a data. Tive a ideia de postar uma foto por dia nas minhas redes sociais, aí fui pensando em qual contexto seria, convidei algumas pessoas, entrevistei pra saber como era a relação dela com a pele… enfim! No final, o resultado foi ótimo, é um trabalho do qual me orgulho muito. Esse ano quero fazer novamente sim, mas com outra abordagem, talvez mulheres, ainda estou pensando… mas vai rolar!

Não querendo puxar a sardinha para o nosso lado, mas com mulheres ia ficar massa! (risos). Você faz fotos belíssimas de mulheres, inclusive. Acho que toda mulher de Camaçari deveria marcar um ensaio contigo, só acho! Desconto para as leitoras do Camaçari Mulher, por favor…

Opa!!! (risos). Eu gosto de fotografar pessoas, mas confesso que mulheres, sobretudo, negras, me instigam um pouquinho mais. Rola uma identificação, existe uma ponte que nos liga porque de alguma forma essa mulher já passou por experiências parecidas com as minhas, temos dores e lutas semelhantes.

Vem muita mulher com problema de autoestima querendo fotografar?

Vem mulher e vem homem também! A insegurança é comum a todos. O que eu mais recebo é gente que não se acha fotogênica, não se acha bonita e que depois de ver os cliques se surpreende. A questão é que a galera acha que não vai sair legal na fotografia por não estar dentro do “padrão de beleza”, esse padrão que a gente nem sabe qual é, além da pele branca e do peso ideal, a gente não sabe muito bem o que é.

Você já foi vítima de racismo?

Sim, já… acho que não deve ter um negro que não tenha sido. O racismo ainda está muito presente na nossa sociedade e a gente que tem a pele preta sofre com isso o tempo todo. E o racismo é difícil de enfrentar. Na maioria das situações, a exclusão existe de maneira muito sutil, por isso precisamos combatê-lo unindo as nossas forças. Gosto muito de uma frase de Angela Davis que diz que “numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. E percebo que muita gente está se dando conta disso. Eu sou otimista, sabe?! Acho que estamos trilhando um caminho mais justo.

Também somos otimistas! Observamos, por exemplo, que há um movimento cada vez mais forte de pessoas assumindo a identidade, a cultura negra com muito orgulho…

Sim, sim! E como não se orgulhar de um povo tão forte?! Percebo isso com muita alegria. Antigamente, por exemplo, quase toda menina negra alisava o cabelo e hoje a gente vê uma grande parte assumindo o cabelo crespo ou cacheado como bandeira, isso é muito legal. Claro que a nossa luta é bem maior que um cabelo, mas é um grande passo nessa caminhada.

E por falar em cabelo… o seu demonstra que você é uma mulher de atitude. Raspar a cabeça numa sociedade que cultua tanto as madeixas, sobretudo, longas, requer coragem, né?!

Então! Sempre tem quem olhe assustado!!!! Porque a sociedade tem padrões e toda vez que alguém “sai desse trilho”, causa estranheza. Mas eu busco sempre estar em paz comigo mesma ainda que muitas vezes isso vá contra o fluxo. Chegou um tempo, por exemplo, que a minha maior identificação era o cabelo, as pessoas se aproximavam e perguntavam o que eu usava para ele ficar tão bonito, queriam passar a mão, se incomodavam quando eu o usava preso, enfim, coisas desse tipo. E chegou num ponto que me incomodou. Aí eu cortei porque queria provar para mim mesma que eu era bem mais que um cabelo. Funcionou! Barbearia é um caminho sem volta (risos).

Nunca se arrependeu de cortar?

Não. Eu sou uma mulher de fases, adoro mudanças! Passei por várias situações com esse cabelo, perguntaram se eu iria virar menino, teve gente falando que estava ridículo, que eu parecia um pivete, houve quem perguntasse se eu estava doente… então virou, também, uma questão de resistência… um pouquinho de vontade de provar que existem outras coisas que despertam sua feminilidade. E esse corte também abriu em mim, espaço para outros debates. Tipo: como as pessoas reagem quando você está diferente do que elas visualizam em relação a você? Isso, inclusive, cria muros e, nesse caso, positivos, porque afasta quem não está preparado para estar contigo quando você não é o que ela quer que você seja, sacou?! Pra mim foi muito bom e eu tô viciada em barbearia.

É uma grande transformação…

Exatamante! É como uma fotografia, porque toda foto é uma transformação da realidade, nunca é a realidade, por mais fidedigna que seja, porque a partir do momento que ela passa por uma câmera fotográfica, ocorre um processamento, o fotógrafo define o nível de claridade, define o posicionamento, coloca a sua visão. A marca do meu Studio é uma borboleta, ou seja, uma lagarta que está dentro de um casulo e depois ganha asas, um processo transformador acontecendo de dentro para fora, e isso tem muito a ver comigo porque nenhuma mudança externa tem valia se por dentro você não mudou.

Comentários

comments